quarta-feira, 27 de abril de 2016

O BOM LADRÃO



   Alguns dias antes da prisão do Mestre, os discípulos, nas suas discussões naturais, comentavam o problema da fé, com o desejo desordenado de quantos se atiram aos assuntos graves da vida, tentando, apressadamente, forçar uma solução.
    — Como será essa virtude? De que modo conservá-la-emos intacta no coração? — inquiria Levi, com atormentado pensamento. Tenho a convicção de que somente o homem culto pode conhecer toda a extensão de seus benefícios.
   — Não tanto assim — aventava Tiago, seu irmão —, acredito que basta a nossa vontade, para que a confiança em Deus esteja viva em nós.
   — Mas a fé será virtude para os que apenas desejam? — perguntava um dos filhos de Zebedeu.
   A um canto, como distante daqueles duelos da palavra, Jesus parecia meditar. Em dado instante, solicitado ao esclarecimento, respondeu com suavidade:
   — A fé pertence, sobretudo, aos que trabalham e confiam. Tê-la no coração é estar sempre pronto para Deus. Não importam a saúde ou a enfermidade do corpo, não têm significação os infortúnios ou os sucessos felizes da vida material. A alma fiel trabalha confiante nos desígnios do Pai, que pode dar os bens, retirá-los e restituí-los em tempo oportuno, e caminha sempre com serenidade e amor, por todas as sendas pelas quais a mão generosa do Senhor a queira conduzir.
  — Mas, Mestre — redarguiu Levi, em respeitosa atitude —, como discernir a vontade de Deus, naquilo que nos acontece? Tenho observado grande número de criaturas criminosas que atribuem à Providência os seus feitos delituosos e uma legião de pessoas inertes que classificam a preguiça como fatalidade divina.
   — A vontade de Deus, além da que conhecemos através de sua lei e de seus profetas, através do conselho sábio e das inclinações naturais para o bem, é também a que se manifesta, a cada instante da vida, misturando a alegria com as amarguras, concedendo a doçura ou retirando-a, para que a criatura possa colher a experiência luminosa no caminho mais espinhoso. Ter fé, portanto, é ser fiel a essa vontade, em todas as circunstâncias, executando o bem que ela nos determina e seguindo-lhe o roteiro sagrado, nas menores sinuosidades da estrada que nos compete percorrer.
    — Entretanto — observou Tomé —, creio que essa qualidade excepcional deve ser atributo do espírito mais cultivado, porque o homem ignorante não poderá cogitar da aquisição de semelhante patrimônio.
   O Mestre fitou o apóstolo com amor e esclareceu:
    — Todo homem de fé será, agora ou mais tarde, o irmão dileto da sabedoria e do sentimento; porém, essa qualidade será sempre a do filho leal ao Pai que está nos Céus.
   O discípulo sorriu e obtemperou:
   — Todavia, quem possuirá no mundo lealdade perfeita como essa?
    — Ninguém pode julgar em absoluto — disse o Cristo com bondade —, a não ser o critério definitivo de Deus; mas, se essa conquista da alma não é comum às criaturas de conhecimento parco ou de posição vulgar, é bem possível que a encontremos no peito exausto dos mais infelizes ou desclassificados do mundo.
  O apóstolo sorriu desapontado, no seu cepticismo de homem prático. Dentro em pouco, a pequena comunidade se dispersava, à aproximação do manto escuro da noite.



  Na hora sombria da cruz, disfarçado com vestes diferentes, Tomé acompanhou, passo a passo, o corajoso Messias.
   Estranhas reflexões surgiam-lhe no espírito. Sua razão de homem do mundo não lhe proporcionava elementos para a compreensão da verdade toda. Onde estava aquele Deus amoroso e bom, sobre quem repousavam as suas esperanças? Seu amor possuiria apenas uma cruz para oferecer ao filho dileto? Por que motivo não se rasgavam os horizontes, para que as legiões dos anjos salvassem do crime da multidão inconsciente e furiosa o Mestre amado? Que Providência era aquela que se não manifestava no momento oportuno? Durante três anos consecutivos haviam acreditado que Deus guardava todo o poder sobre o mundo; não conseguia, pois, explicar como tolerava aquele espetáculo sangrento de ser o seu enviado, amorável e carinhoso, conduzido para o madeiro infamante, sob impropérios e pedradas. O prêmio do Cristo era então aquele monte da desolação, reservado aos criminosos?
  Ansioso, o discípulo contemplou aquelas mãos que haviam semeado o bem e o amor, agora agarradas à cruz como duas flores ensanguentadas. A fronte aureolada de espinhos era uma nota irônica na sua figura sublime e respeitável. Seu peito tremia, ofegante, seus ombros deveriam estar pisados e doloridos. Valera a pena haver distribuído, entre os homens, tantas graças do Céu? O malfeitor que assaltava o próximo era, agora, a seu ver, o dono de mais duradouras compensações.
   Tomé se sentia como que afogado. Desejou encontrar algum dos companheiros para trocar impressões, entretanto, não viu um só deles. Procurou observar se os beneficiados pelo Messias assistiam ao seu martírio humilhante, na hora final, lembrando de que ainda na véspera se mostravam tão reconhecidos e felizes com a sua santa presença. A ninguém encontrou. Aqueles leprosos que haviam recuperado o dom precioso da saúde, os cegos que conseguiram rever o quadro caricioso da vida, os aleijados que haviam cantado hosanas à cura de seus corpos defeituosos, estavam agora ausentes, fugiam ao testemunho. Valera a pena praticar o bem? O apóstolo, mergulhado em dolorosos e sombrios pensamentos, deixava absorver-se em estranhas interrogações.
   Reparou que em torno da cruz estrugiam gargalhadas que reportavam ironias. O Mestre, contudo, guardava no semblante uma serenidade inexcedível. De vez em quando, seu olhar se alongava por sobre a multidão, como querendo descobrir um rosto amigo.
  Sob as vociferações da turba amotinada, a Tomé parecia-lhe escutar ainda o ruído inolvidável dos cravos do suplício. Enquanto as lanças e os vitupérios se cruzavam nos ares, fixou os dois malfeitores que a justiça do mundo havia condenado à pena última. 10 Aproximou-se da cruz e notou que o Messias punha nele os olhos amorosos, como nos tempos mais tranquilos. Viu que um suor empastado de sangue lhe corria do rosto venerável, misturando-se com o vermelho das chagas vivas e dolorosas. Com aquele olhar inesquecível, Jesus lhe mostrou as úlceras abertas, como o sinal do sacrifício. Penosa emoção dominou a alma sensível do discípulo. Olhos enevoados de pranto, recordou os dias radiosos do Tiberíades. 
   As cenas mais singelas do apostolado ressurgiam ante a sua imaginação. Subitamente, lembrou-se da tarde em que haviam comentado o problema da fé, parecendo-lhe ouvir ainda as elucidações do Mestre, com respeito à perfeita lealdade a Deus. Reflexões instantâneas lhe empolgaram o coração. Quem teria sido mais fiel ao Pai do que Jesus? Entretanto, a sua recompensa era a cruz do martírio! Absorto em singulares pensamentos, o apóstolo observou que o Messias lançava agora os olhos enternecidos sobre um dos ladrões, que o fixava afetuosamente.
   Nesse instante, percebeu que a voz débil do celerado se elevava para o Mestre, em tom de profunda sinceridade:
— Senhor! — disse ele, ofegante — lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!…
O discípulo reparou que Jesus lhe endereçava, então, o olhar caricioso, ao mesmo tempo que aos seus ouvidos chegavam os ecos de sua palavra suave e esclarecedora:
— Vês, Tomé? Quando todos os homens da lei não me compreenderam e quando os meus próprios discípulos me abandonaram, eis que encontro a confiança leal no peito de um ladrão!…



  Inquieto, o discípulo meditou na lição recebida e, horas a fio, contemplou o espetáculo doloroso, até ao momento em que o Mestre foi retirado da cruz da derradeira agonia. Começava, então, a compreender a essência profunda de seus ensinos imortais.
  Como se o seu Espírito fora transportado ao cume de alto monte, pareceu-lhe observar daí a pesada marcha humana. Viu conspícuos homens da lei, sobraçando os livros divinos; doutores enfatuados de orgulho passavam eretos; exibindo os mais complicados raciocínios. Homens de convicções sólidas integravam o quadro, entremostrando a fisionomia satisfeita. Mulheres vaidosas ou fanáticas lá iam, igualmente, revelando seus títulos diletos. Em seguida, vinham os diretamente beneficiados pelo Mestre Divino. Era a legião dos que se haviam levantado da miséria física e das ruínas morais. Eram os leprosos de Jerusalém, os cegos de Cafarnaum,  os doentes de Sídon,  os seguidores aparentemente mais sinceros, ao lado dos próprios discípulos que desfilavam, envergonhados, e se dispersavam, indecisos, na hora extrema.
   Possuído de viva emoção, Tomé se pôs a chorar intimamente. Foi então que presumiu escutar uns passos delicados e quase imperceptíveis. Sem poder explicar o que se dava, julgou divisar, a seu lado, a inolvidável figura do Mestre, que lhe colocou as mãos leves e amigas sobre a fronte atormentada, repetindo-lhe ao coração as palavras que lhe havia endereçado da cruz:
   — Vês, Tomé? Quando todos os homens da lei não me compreenderam e os próprios discípulos me abandonaram, eis que encontro a confiança leal no peito de um ladrão!

(do livro "BOA NOVA", Humberto de Campos, Chico Xavier, FEB)


quinta-feira, 24 de março de 2016

QUANDO O AMOR SE EXPRESSA


Quando se vê uma mulher grávida, quase sempre se pergunta se ela sabe se é menino ou menina.
E quando ela ainda não tem essa certeza, responde: Não importa o que seja, desde que seja perfeito, com saúde.
Este é o anseio de todos os pais. Assim também para aquele casal belga, na flor dos seus vinte anos.
Os filhos chegaram um a um, sadios e tudo transcorria bem. Até que sua caçula Stephanie, aos três meses, foi vítima da síndrome da morte súbita na infância.
Somente a fé cristã fortaleceu o mundo abalado daquela família. Nada poderia trazer de volta sua filha, mas eles se deram conta de quão preciosa era a vida de uma criança.
Tomaram uma resolução. Não foi nada de momento. Deixaram passar quatro anos. Christiane deu a luz mais um filho.
Então, resolveram que podiam acolher em sua casa e amar uma criança que não tivesse família. Que não tivesse quem a amasse.
Ao se inscreverem no programa de adoção, seus nomes ficaram como os últimos de uma lista interminável.
Afinal, eles eram pais de três crianças, saudáveis e felizes.
Mas, eles receberam Hélène, de quatro anos. A pequena menina negra era cheia de vida e se uniu aos filhos do casal: Davi, sete anos, Benoît, cinco e Nicolas, um ano.
Em seguida, um menino indiano, com sequelas de poliomielite, chegou. Após várias cirurgias, verificou-se que ele nunca voltaria a andar com suas próprias pernas.
E vieram os outros, do Brasil, da Colômbia, de Camarões, do Haiti.
Dezenove filhos. Onze adotados. Sete com deficiências físicas ou mentais, ou ambas.
Todos os dias letivos, pouco depois das quatro da tarde, ônibus e carros chegavam de variadas escolas e deixavam crianças na casa dos Boldos.
Correndo, mancando ou rolando em cadeiras de rodas, elas entravam em casa para vasculhar a cozinha à procura de petiscos, procurando mãe e pai para darem um abraço.
O tempo passou... Os filhos mais velhos já têm suas vidas. Casados, com suas profissões, não perderam o contato com a família.
Christiane, a mãe, tem uma fórmula especial para definir a própria família: Ela foi construída pedra por pedra.
Uma criança era adotada, outra nascia. As que estavam conosco achavam que essa era a ordem natural da vida.
A família Boldo criou, na Bélgica, uma fundação com o propósito de encontrar lares adotivos para crianças órfãs com deficiência.
A média mensal inicial era encontrar lares para uma ou duas crianças.
Plenamente envolvidos nesse trabalho, os Boldo, em vinte anos, conduziram quatrocentas e dez crianças com deficiências, de vinte países diferentes, a lares de famílias belgas.
E dizer que tudo começou pela dolorosa perda de uma filha de apenas três meses de idade.

O amor é expressão superior que motiva o ser a altos cumes.
Quando se apresenta, oferece condições de superação de toda dor e permite ao sofredor vislumbrar o sol para além da cortina das lágrimas.
Mais do que isso: confere-lhe condições de encontrar almas mais sofridas que ele próprio e estender as mãos para ajudá-las.

(Redação do Momento Espírita, com base no artigo Um lar para os filhos de ninguém, de Lawrence Elliott,  da Revista Seleções Reader’s Digest, de janeiro/2004)


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

FILHOS PRÓDIGOS

“E caindo em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai  têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!” (Lucas, 15:17) 



Examinando­-se a figura do filho pródigo, toda gente idealiza um homem rico, dissipando possibilidades materiais nos festins do mundo. O quadro, todavia, deve ser ampliado, abrangendo as modalidades diferentes. Os filhos pródigos não respiram somente onde se encontra o dinheiro em abundância. Acomodam­-se em todos os campos da atividade humana, resvalando de posições diversas. Grandes cientistas da Terra são perdulários da inteligência, destilando venenos intelectuais, indignos das concessões de que foram aquinhoados. Artistas preciosos gastam, por vezes, inutilmente, a imaginação e a sensibilidade, através de aventuras mesquinhas, caindo, afinal, nos desvãos do relaxamento e do crime. Em toda parte vemos os dissipadores de bens, de saber, de tempo, de saúde, de oportunidades... São eles que, contemplando os corações simples e humildes, em marcha para Deus, possuídos de verdadeira confiança, experimentam a enorme angústia da inutilidade e, distantes da paz íntima, exclamam desalentados: –  “Quantos trabalhadores pequeninos guardam o pão da tranqüilidade, enquanto a fome de paz me tortura o espírito!”

O mundo permanece repleto de filhos pródigos e, de hora a hora, milhares de vozes proferem aflitivas exclamações iguais a esta.

(Do livro PÃO NOSSO, Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, FEB)

domingo, 3 de janeiro de 2016

FAZ DEUS MILAGRES?



Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas fá-los? Ou, por outras palavras; derroga as leis que Dele próprio emanaram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve concluir que não faz coisa alguma inútil. Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo do universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos sabem imitar? Que se diria de um sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera? Seu saber, ao contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da precisão do movimento da sua obra? Não é, pois, da alçada do espiritismo a questão dos milagres; mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, emite a seguinte opinião: Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários. Admitido que Deus houvesse alguma vez, por motivos que nos escapam, derrogado acidentalmente leis por ele estabelecidas, tais leis já não seriam imutáveis. Mesmo, porém, que semelhante derrogação seja possível, ter-se-á, pelo menos, de reconhecer que só ele, Deus, dispõe desse poder; sem se negar ao espírito do mal a onipotência, não se pode admitir lhe seja dado desfazer a obra divina, operando, de seu lado, prodígios capazes de seduzir até os eleitos, pois que isso implicaria a ideia de um poder igual ao de Deus. É, no entanto, o que ensinam. Se Satanás tem o poder de sustar o curso das leis naturais, que são obra de Deus, sem a permissão deste, mais poderoso é ele do que a divindade. Logo, Deus não possui a onipotência e se, como pretendem, delega poderes a Satanás, para mais facilmente induzir os homens ao mal, falta-lhe a soberana bondade. Em ambos os casos, há negação de um dos atributos sem os quais Deus não seria Deus. Daí vem a igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima ideia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje. Reconhecida a possibilidade de alguns fatos considerados miraculosos, há de se concluir que, seja qual for a origem que se lhes atribua, eles são efeitos naturais de que se podem utilizar Espíritos desencarnados ou encarnados, como de tudo, como da própria inteligência e dos conhecimentos científicos de que disponham, para o bem ou para o mal, conforme neles preponderem a bondade ou a perversidade. Valendo-se do saber que haja adquirido, pode um ser perverso fazer coisas que passem por prodígios aos olhos dos ignorantes; mas quando tais efeitos dão em resultado um bem qualquer, fora ilógico atribuir-se-lhes uma origem diabólica. Mas a religião, dizem, se apoia em fatos que nem explicados, nem explicáveis são. Inexplicados, talvez; inexplicáveis, é questão muito outra. Que sabe o homem das descobertas e dos conhecimentos que o futuro lhe reserva? sem falar do milagre da criação, o maior de todos sem contestação possível, já pertencente ao domínio da lei universal, não vemos reproduzirem-se hoje, sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do espiritismo, os êxtases, as visões, as aparições, as percepções a distância, as curas instantâneas, as suspensões, as comunicações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos esses conhecidos desde tempos imemoráveis, tidos outrora por maravilhosos e que presentemente se demonstra pertencerem à ordem das coisas naturais, de acordo com a lei constitutiva dos seres? Os livros sagrados estão cheios de fatos desse gênero, qualificados de sobrenaturais; como, porém, outros análogos e ainda mais maravilhosos se encontram em todas as religiões pagãs da Antiguidade, se a veracidade de uma religião dependesse do número e da natureza de tais fatos, não se saberia dizer qual a que devesse prevalecer.

(Do livro "A Gênese", Allan Kardec, FEB)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL E VIDA




Era noite de Natal, mas ele não podia delegar o trabalho que iria começar dentro de alguns minutos.
Há muitos anos Maurício era voluntário do CVV - Centro de Valorização da Vida. Dedicava-se de todo coração.
Prontificara-se a ouvir os desabafos dos desiludidos da vida, antes que se decidissem pelo suicídio.
Trabalho anônimo. A simples escuta amorosa permite mudar a forma de pensar de muitos que buscam apoio.
Espírito solidário e disponibilidade de pouco mais de quatro horas semanais é um dos requisitos dos voluntários desse extraordinário serviço que iniciou, em nosso país, no ano de 1962.
Também anonimato de quem se dispõe à sua execução e sigilo das conversas. Um verdadeiro trabalho de amor.
Uma surpresa incalculável esperava por Maurício, nesse dia.
Quando o telefone tocou, uma voz clara e alegre se fez ouvir.
Era portadora de reconhecimento a todos os voluntários daquele trabalho.
Hoje estou ligando para agradecer o atendimento que recebi, há alguns meses.
Graças a vocês, estou novamente junto de minha família, e vou poder passar o Natal e o dia de Ano Novo com meus familiares queridos.
Peço a Deus para abençoar a todos os que dedicam suas horas proporcionando tamanha bênção.
Infinita emoção envolveu Maurício, que mal conseguiu falar um muito obrigado, em nome de todos os voluntários.
Sempre que chega dezembro, basta dedicarmos um pouco de atenção, para notarmos, que algo muda no ar.
O mês, dedicado à comemoração do nascimento do Mestre Jesus, traz consigo uma atmosfera de emoções especiais.
Demonstração clara de que nossos pensamentos, palavras e ações constroem nosso ambiente.
São as lembranças ricas de amor e carinho, entre familiares próximos e distantes.
São trocas de mensagens de amor, em nome de Jesus.
A aproximação de amigos distantes que se buscam para as comemorações fraternas.
Bazares de prendas que se realizam, em benefício de lares adotivos, creches, asilos.
Festas de confraternização entre trabalhadores de diversos setores.
Distribuição de doces e brinquedos para as crianças carentes.
Visitas aos lares necessitados, para entrega de cestas básicas, guloseimas e brinquedos.
Corais infantis sonorizando com boas músicas lugares privilegiados, nas cidades.
Peças teatrais nas escolas, contemplando passagens da vida de Jesus.
Lares e comércio, em geral, iluminados com coloridos alegres e chamativos.
Visitas queridas, que vêm de longe, trazendo e recebendo alegrias de reencontros.
E muitos agradecimentos especiais plenificam corações bondosos, inesperadamente.
As emoções, as lembranças, os sorrisos, a alegria saudável espoucam em todas as direções.
É Jesus mais próximo de nossos corações.
É Jesus compartilhando pensamentos, palavras e ações.
É Jesus abençoando a Humanidade.
É Jesus causando mudanças na atmosfera dos corações.
Ah! Se os homens resolvessem ter sempre Jesus tão próximo assim, o mundo seria tão mais agradável!
Como seria harmoniosa a Terra se todos os meses fossem dezembro. Se em todos os meses se comemorasse o aniversário do Rei Solar e Governador planetário.

(Redação do Momento Espírita)


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO


Em que se funda o dogma da reencarnação?

“Na justiça de Deus e na revelação, pois incessante mente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniqüidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”

Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Não obraria Deus com eqüidade, nem de acordo com a sua bondade, se condenasse para sempre os que talvez hajam encontrado, oriundos do próprio meio onde foram colocados e alheios à vontade que os animava, obstáculos ao seu melhoramento. Se a sorte do homem se fixasse irrevogavelmente depois da morte, não seria uma única a balança em que Deus pesa as ações de todas as criaturas e não haveria imparcialidade no tratamento que a todas dispensa.

A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam.

O homem, que tem consciência da sua inferioridade, haure consoladora esperança na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que venha a achar-se, para sempre, em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Sustém-no, porém, e lhe reanima a coragem a idéia de que aquela inferioridade não o deserda eternamente do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquistá-lo. Quem é que, ao cabo da sua carreira, não deplora haver tão tarde ganho uma experiência de que já não mais pode tirar proveito? Entretanto, essa experiência tardia não fica perdida; o Espírito a utilizará em nova existência.
(O Livro dos Espíritos, questão 171, Allan Kardec, FEB)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

PERDOADOS, MAS NÃO LIMPOS



Em nossas faltas, na maioria das vezes, somos imediatamente perdoados, mas não limpos.
Fomos perdoados pelo fel da maledicência, mas a sombra que tencionávamos esparzir, na estrada alheia, permanece dentro de nós por agoniado constrangimento.
Fomos perdoados pela brasa da calúnia, mas o fogo que arremessamos à cabeça do próximo passa a incendiar-nos o coração.
Fomos perdoados pelo corte da ofensa, mas a pedra atirada aos irmãos do caminho volta incontinenti, a lanhar-nos o próprio ser.
Fomos perdoados pela falha de vigilância, mas o prejuízo em nossos vizinhos cobre-nos de vergonha.
Fomos perdoados pela manifestação de fraqueza, mas o desastre que provocamos é dor moral que nos segue os dias.
Fomos perdoados por todos aqueles a quem ferimos, no delírio da violência, mas, onde estivermos, é preciso extinguir os monstros do remorso que os nossos pensamentos articulam, desarvorados.


Chaga que abrimos na alma de alguém pode ser luz e renovação nesse mesmo alguém, mas será sempre chaga de aflição a pesar-nos na vida.
Injúria aos semelhantes é azorrague mental que nos chicoteia.
A serpente carrega consigo o veneno que veicula.
O escorpião carrega em si próprio a carga venenosa que ele mesmo segrega.


Ridiculizados, atacados, perseguidos ou dilacerados, evitemos o mal, mesmo quando o mal assuma a feição de defesa, porque todo mal que fizermos aos outros é mal a nós mesmos.
Quase sempre aqueles que passaram pelos golpes de nossa irreflexão já nos perdoaram incondicionalmente, fulgindo nos planos superiores; no entanto, pela lei de correspondência, ruminamos, por tempo indeterminado, os quadros sinistros que nós mesmos criamos.
Cada consciência vive e evolve entre os seus próprios reflexos.

É por isso que Allan Kardec afirmou, convincente, que, depois da morte, até que se redima no campo individual, “para o criminoso a presença incessante das vítimas e das circunstâncias do crime é suplício cruel”.

(Do livro "Justiça Divina", Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, FEB)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SEM RUÍDO




“Mas quando vier aquele Espírito de Verdade, ele vos guiará em toda a verdade.” — Jesus (João, 16-13)

O caminho de toda a Verdade é Jesus Cristo. O Mestre veio ao mundo instalar essa verdade para que os homens fossem livres e organizou o programa dos cooperadores de seu divino trabalho, para que se preparasse convenientemente o caminho infinito. No fim da estrada colocou a redenção e deu às criaturas o amor como guia.
Conforme sabemos, o guia é um só para todos.  E vieram os homens para o serviço divino. Com os cooperadores vinham, porém, os gênios sombrios, que se ombreavam com eles nas cavernas da ignorância.
    A religião, como expressão universalista do amor, que é o guia, pairou sempre pura acima das misérias que chegaram ao grande campo; mas este ficou repleto das absurdidades. O caminho foi quase obstruído.
A ambição exigiu impostos dos que desejavam passar, o orgulho reclamou a direção dos movimentos, a vaidade pediu espetáculos, a conveniência requisitou máscaras, a política inferior estabeleceu guerras, a separatividade provocou a hipnose do sectarismo.
O caminho ficou atulhado de obstáculos e sombras e o interessado, que é o espírito humano, encontra óbices infinitos para a passagem.
O quadro representa uma resposta a quantos perguntarem sobre os propósitos do Espiritismo cristão, sendo que o homem já conhece todos os deveres religiosos. Ele é aquele Espírito de Verdade que vem lutar contra os gênios sombrios que vieram das cavernas da ignorância e invadiram o campo do Cristo.
     Mas, guerrear como: Jesus não pediu a morte de ninguém. Sim, o Espírito de Verdade vem como a luz que combate e vence as sombras, sem ruídos. Sua missão é transformar, iluminando o caminho para que os homens vejam o amor, que constitui o guia único para todos, até à redenção.


(Do livro “Segue-me”, Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, O Clarim)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

37ª SEMANA ESPÍRITA CABENSE




“O Que é o Espiritismo?” será o tema da 37ª Semana Espírita Cabense, que acontecerá de 17 e 22 de novembro, na Câmara dos Vereadores do Cabo, das 19h30 às 21h.
O evento é uma vitrine de palestrantes espíritas que representam as federações estaduais da qual pertencem. Palestrantes da Paraíba e Pernambuco figuram entre os participantes deste ano e os temas de cada noite explicarão melhor para espíritas e não espíritas os aspectos mais marcantes da doutrina codificada por Alan Kardec, na França do século XIX. Os subtemas que sucederão a cada noite repercutem aspectos relevantes do Espiritismo. O evento reúne centenas de pessoas para assistir ou comprar livros nos estandes montados no local.
“Os subtemas foram escolhidos cuidadosamente para elucidar melhor questões cruciais da Doutrina”, explica o coordenador geral do evento, Gutemberg Matoso, presidente da comissão organizadora do evento, formada por representantes de casas espíritas do Cabo, a Comec (Comissão do Movimento Espírita do Cabo).
No primeiro dia do evento, na terça-feira, 17/11, o tema principal “O Que é O Espiritismo” será defendido pelo escritor e conferencista internacional do Espiritismo, Severino Celestino (PB). No segundo dia da Semana Espírita do Cabo, 18/11, o público poderá assistir à palestra ‘Reencarnação à Luz da Ciência, Filosofia e Religião’, do palestrante Frederico Menezes (PE), considerado uma referência no Espiritismo em Pernambuco, autor de diversos livros e DVDs espíritas. Ele é o representante da Sociedade Espírita Casa do Caminho.
Nos dias subsequentes as palestras serão: Céu e Inferno Existem? A Doutrina Espírita Lhe Dirá, na quinta-feira, 19/11 e o palestrante será Alisson Guedes (PE); Na sexta-feira, 20/11, a palestra será ‘Você Conhece o Centro Espírita?’ será proferida por Rossandro Klynji (PB); no sábado, 21/11, o palestrante Sérgio Ramos (PE) falará sobre o tema ‘Espíritos: Eles influenciam em Nossas Vidas?’ E no último dia da Semana Espírita, domingo, 22/11, ‘Jesus – Base Moral do Espiritismo’ será o tema a ser defendido por Liszt Rangel (PE), da Sociedade Recifense de Estudos Espíritas.

A comissão realizadora do evento é formada pelo Núcleo Espírita Ismael Gomes Braga (NEIGB), Sociedade Espírita Casa do Caminho (SOESCA), Grupo Espírita da Paz (GEP), Núcleo Espírita Redenção (NER), Grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec (GEEAK) e Grupo de Estudos Espíritas Alvorada Cristã (GEAC) e pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Espíritas (GEPE).

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

TRAZ ELE DE VOLTA



Lembra-te dele,
nas suas lembranças mais esquecidas,
recorda seus sorrisos de primavera,
seus abraços de verão e
do balé das estações que era estar ao seu lado.

Traz ele de volta,
revive seu canto nas ruas por onde passa,
onde outras formas de pobreza grassa,
junto às pessoas que encontra esquecidas delas mesmas.


Traz ele de volta,
cultiva um pouco de esperança,
na atenção a uma criança,
no norte para um jovem,
na serenidade a um adulto,
na paciência com os que muito viveram.

Traz ele de volta,
sem temer a loucura e o feitiço do amor,
os risos, o deboche e a indiferença,
quando falares de ternura
e deres amizade verdadeira.
Dança sob a chuva,
silencia quando todos falarem,
fale quando muitos não quiserem ouvir.



Traz ele de volta,
na pobreza dos teus dias de tanta cultura,
mas vazia de sentimento.
Declama versos de simpatia
em estrofes de alegria.
Tece uma guirlanda de flores silvestres
e deposita-a na fronte de um doente.
Espalha sorrisos e pães,
carinhos e abraços,
beijando com doçura quem te pede compreensão.


Traz ele de volta,
em cada passo dos teus pés,
no compasso do amor que nunca se esgota na canção cheia de sol!
Semeia com teus olhos novas esperanças
e colhe sonhos de amor com teus gestos simples.


Traz ele de volta,
e vive a liberdade proposta no abraço que não retém, 
nos sorrisos que não aprisionam, 
nas conversas que não controlam,
nos gestos que não seduzem,
no silêncio que não recrimina nem examina, apenas acolhe!

Enfeita tua casa com guizos,
margaridas, rosas e jasmins, 
assa o pão da amizade e prepara o vinho da esperança,
e quando o vento cantar suas canções nos galhos do arvoredo,
mistura teu encanto ao dele e chama o pobrezinho para rir e amar,
Pois tudo o que ele mais deseja é ficar ao teu lado, de mãos dadas com você, 
como um menestrel do bem, um trovador da alegria,
fazendo versos de amor em meio aos reversos da vida.



Traz ele de volta...

(Nossa singela homenagem ao pobrezinho de Assis.)

(Do Livro "O Sol de Assis", Joanna de Angelis, psicografia de Divaldo Franco, FEB)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CONVERSA COM JESUS



Senhor! Não lastimamos tanto
Contemplar no caminho a penúria sem nome,
Porque sabemos que socorrerás
Os famintos de pão e os sedentos de paz;
Dói encontrar na vida
Os que fazem a fome.

Ante aqueles que choram
Não lamentamos tanto,
Já que estendes o braço
Aos que gemem de angústia e cansaço;
Deploramos achar nas multidões do mundo
Os que abrem na Terra as comportas do pranto.

Não lastimamos tanto os que se esfalfam
Carregando a aflição de férrea cruz,
De vez que nós sabemos quanto assistes
Os humildes e os tristes;
Lastimamos os cérebros que brilham
E sonegam a luz.

Não deploramos tanto os que suportam
Sarcasmo e solidão na carência de amor,
Porquanto tens as mãos, hora por hora,
No consolo e no apoio a todo ser que chora;
Lamentamos fitar os amigos felizes
Que alimentam a dor.

É por isso, Jesus, que nós te suplicamos:
Não nos deixes seguir-te o passo em vão,
Que o prazer do conforto não nos vença,
Livra-nos de tombar no pó da indiferença...
Inda que a provação nos seja amparo e guia,
Toma e guarda em serviço o nosso coração.
(Do livro "Mãos Marcadas", Maria Dolores, psicografia de Chico Xavier)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

NÃO HÁ MORTE



Depois que partiram do círculo carnal aqueles a quem amas, tens a impressão de que a vida perdeu a sua finalidade.

As horas ficam vazias, enquanto uma angústia que te dilacera e uma surda desesperação que te mina as energias se fazem a constante dos teus momentos de demorada agonia.

Estiveram ao teu lado como bênçãos de Deus, clareando o teu mundo de venturas com o lume da tua presença e não pensaste, não te permitiste acreditar na possibilidade de que eles te pudessem preceder na viagem de retorno.

Cessados os primeiros instantes do impacto que a realidade te impôs, recapitulas as horas de júbilo enquanto o pranto verte incessante, sem conforta-te, como se as lágrimas carregassem ácido que te requeima desde a fonte do sentimento à comporta dos olhos, não diminuindo a ardência da saudade. . .

Antes da situação, o futuro se te desdobra sombrio, ameaçador, e interrogas como será possível prosseguir sem eles.

O teu coração pulsa destroçado e a tua dor moral se transforma em punhalada física, a revolver a lâmina que te macera em largo prazo.

Temes não suportar tão cruel sentimento. Conseguirás porém superá-lo. Muito justas, sim, tuas saudades e sofrimentos.

Não, porém, a ponto de levar-te ao desequilíbrio, à morte da esperança, à revolta. . .

Os seres a quem amas e que morreram, não se consumiram na voragem do aniquilamento. Eles sobreviveram.

A vida seria um engodo, se se destruísse ante o sopro desagregador da morte que passa.

A vida se manifesta, se desenvolve em infinitos matizes e incontáveis expressões. A forma se modifica e se estrutura, se agrega e se decompõe passando de uma para outra expressão vibratória sem que a energia que a vitaliza dependa das circunstâncias transitórias em que se exterioriza.

Não estão portanto, mortos, no sentido de destruídos, os que transitaram ao teu lado e se transferiram de domicílio.

Prosseguem vivendo aqueles a quem amas.

Aguarda um pouco, enquanto, orando, a prece te luarize a alma e os envolvas no rumo por onde seguem.

Não te imponhas mentalmente com altas doses de mágoas, com interrogações pressionantes, arrojando na direção deles os petardos vigorosos da tua incontida aflição.

Esforça-te por encontrar a resignação.

O amor vence, quando verdadeiro, qualquer distância e é ponte entre abismos, encurtando caminhos.

Da mesma forma que anelas por volver a senti-los, a falar-lhes, a ouvir-lhes, eles também o desejam.

Necessitam, porém, evoluir, quanto tu próprio.

Se te prendes a eles demoradamente ou os encarcera no egoísmo, desejando continuar uma etapa que hora se encerrou, não os fruirás, porque estarão na retaguarda.

Libertando-os, eles prosseguirão contigo, preparar-te-ão o reencontro, aguarda-te-ão...

Faze-te, a teu turno, digno deles, da sua confiança, e unge-te de amor com que enriqueças outras vidas em memórias deles, por afeição a eles.

Não penseis mais em termos de “adeus” e, sim, em expressões de “até logo mais”.


Todos os homens na terra são chamados a esse testemunho, o da temporária despedida. Considera, portanto, a imperiosa necessidade de pensar nessa injunção e deixa que a reflexão sobre a morte faça parte do teu programa de assuntos mentais, com que te armarás, desde já para o retorno, ou para enfrentar em paz a partida dos teus amores. . .

Quanto àqueles que viste partir, de quem sofres saudades infinitas e impreenchíveis vazios no sentimento, entrega-os a Deus, confiando-os e confiando-te ao Pai, na certeza de que, se souberes abrir a alma à esperança e a fé, conseguirás senti-los, ouvi-los, deles haurindo a confortadora energia com que te fortalecerás até o instante da união sem dor, sem sombra, sem separação pelos caminhos do tempo sem fim, no amanhã ditoso.


(Joanna de Ângelis)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

COMBATE INTERIOR




“Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.” – Paulo. (Filipenses, 1:30.)
Em plena juventude, Paulo terçou armas contra as circunstâncias comuns, de modo a consolidar posição para impor-se no futuro da raça. Pelejou por sobrepujar a inteligência de muitos jovens que lhe foram contemporâneos, deixou colegas e companheiros distanciados. Discutiu com doutores da Lei e venceu-os. Entregou-se à conquista de situação material invejável e conseguiu-a.
Combateu por evidenciar-se no tribunal mais alto de Jerusalém e sobrepôs-se a velhos orientadores do povo escolhido. Resolveu perseguir aqueles que interpretava por inimigos da ordem estabelecida e multiplicou adversários em toda parte. Feriu, atormentou, complicou situações de amigos respeitáveis, sentenciou pessoas inocentes a inquietações inomináveis, guerreou pecadores e santos, justos e injustos...
Surgiu, contudo, um momento em que o Senhor lhe convoca o espírito a outro gênero de batalha – o combate consigo mesmo.
Chegada essa hora, Paulo de Tarso cala-se e escuta...
Quebra-se-lhe a espada nas mãos para sempre.
Não tem braços para hostilizar e sim para ajudar e servir.
Caminha, modificado, em sentido inverso. Ao invés de humilhar os outros, dobra a própria cerviz.
Sofre e aperfeiçoa-se no silêncio, com a mesma disposição de trabalho que o caracterizava nos tempos de cegueira.
É apedrejado, açoitado, preso, incompreendido muitas vezes, mas prossegue sempre, ao encontro da Divina Renovação.
Se ainda não combates contigo mesmo, dia virá em que serás chamado a semelhante serviço.

Ora e vigia, prepara-te e afeiçoa o coração à humildade e à paciência. Lembra-te, meu irmão, de que nem mesmo Paulo, agraciado pela visita pessoal de Jesus, conseguiu escapar.

(Do livro "Pão Nosso", Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, FEB)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

UM DIA



Um dia, Colombo resolveu empreender a grande viagem, rumo ao mundo novo e descobriu o caminho para a América.
Um dia, a jovem polonesa Maria Sklodowska decidiu buscar a Cidade Luz para iluminar o próprio intelecto.
Adentrou a Universidade da Sorbonne e, entusiasmada pela pesquisa, descobriu o radium, que salva vidas todos os dias.
Um dia, Francisco Bernardone saiu do lar paterno, abandonou a si mesmo e dedicou sua vida a iluminar outras vidas.
Um dia, Madalena, a mulher atormentada por Espíritos infelizes, conheceu Jesus.
Ofereceu-se à virtude e inscreveu seu nome na História, figurando como daquelas almas inesquecíveis.
Um dia, a caminho de Damasco, o rabino Saulo teve um encontro com o Nazareno e mudou sua forma de ver o mundo.
Serviu a Jesus até a morte, entregando-se em holocausto por amor à verdade que distribuiu aos povos.
Um dia, Levi deixou a coletoria onde servia a César, e foi servir ao Mestre de Nazaré.
Deixou de anotar mercadorias, dracmas e bens ilusórios, para registrar para a posteridade os ditos e os feitos do Senhor.
Legou ao mundo o Evangelho segundo Mateus, que inicia com a genealogia de Jesus e conclui com a gloriosa ressurreição.
No dia de Pentecostes, os Apóstolos iniciaram o seu ministério e derramaram pela Terra as bênçãos das claridades do reino de Deus.
Judas era um discípulo fiel a Jesus. Mas, um dia, acreditou mais no poder frágil da Terra do que na administração do céu, e perdeu a si mesmo.
Tudo no Universo começa um dia. Tudo, no mundo dos homens, começa um dia.
Os grandes impérios, as extensas jornadas, as gigantescas construções.
O bem e o mal, a felicidade e o infortúnio, a alegria e a dor guardam o exato momento de início.
Quando plantamos, sabemos que um dia surgirá a produção. Num dia se semeia, em outro se colhe.
Se entregamos o dia para a erva ingrata, ela se alastrará, sufocando o horto.
Se abandonamos os minutos aos vermes daninhos, eles se multiplicarão, impedindo a colheita.
Das resoluções de uma hora, podem sobrevir acontecimentos para mil anos.
Do gesto impensado de um momento, podem advir consequências danosas para muitos anos.
Da correta decisão de um instante, pode se delinear o panorama de alegrias para logo mais.
Tudo depende da nossa atitude na intimidade do tempo.
O amanhã será sempre aquilo que hoje projetamos. Alcançaremos o que procuramos.
Seremos o que desejamos.
Acordemos para a realidade do momento e amontoemos bênçãos, prestando serviços em nossas horas.
Um dia chegará em que necessitaremos dos braços amigos que hoje conquistamos, dos afetos que hoje aninhamos, dos bens que hoje produzimos.

O tempo é o rio da vida, cujas águas nos devolvem o que lhe atiramos.
Enquanto dispomos das horas, realizemos a boa semeadura.
Se acreditamos no bem e a ele atendemos, cedo atingiremos a messe da felicidade.
Contudo, se desrespeitamos o tempo, desacreditando o valor do dia, em algum momento, agora, ou mais tarde, faremos a colheita amarga das horas vazias e dos momentos ociosos.
Pensemos nisso!

(Redação do Momento Espírita, com base no cap. Um dia, pelo Espírito Isabel de Castro, do livro  Falando à Terra, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB)