terça-feira, 21 de julho de 2015

APATIA



Olhando só para o chão, percebeu apenas o movimento das sombras sem cor.
Sem coragem de olhar para o céu, deixou de ver o voo azul das borboletas.

Apatia é doença da alma.
Congela a vontade, paralisa os movimentos, faz-nos estátuas vivas.
Vivos-mortos que perdem o sentido de viver, que cedem ao automatismo dos dias, que adquirem visão monocromática de tudo e de todos.
Indiferença. Os apáticos sofrem do vício da indiferença.
Acostumaram-se com as notícias ruins, as desgraças, os flagelos destruidores, e tais fatos nem mais lhes tocam o coração. Não são capazes nem de enviar bons pensamentos às vítimas.
Uma prece? Não. Prece é coisa de religioso fanático. – Dizem ou pensam.
Acostumaram-se com o jeitinho, esquecendo que tal maneira de negociar ou resolver as questões é apenas corrupção disfarçada.
Acostumaram-se com as lágrimas dos outros e elas não mais os emocionam. Foram obrigados a represar suas emoções. Expressar emoções é para os fracos. – Cochicham.
Acostumaram-se com o mal... inacreditavelmente.

Acostumamo-nos a olhar mais para o chão do que para o céu, esta é a verdade, e depois de um tempo nem achamos o chão tão ruim assim...
Isso é gravíssimo, pois se perde a referência de algo melhor, de algo maior, e todos precisamos mirar alto para poder crescer.
A apatia nos aprisionou em estruturas de pensamentos absurdas, nos aprisionou à falta de emoções e em comportamentos robóticos insensíveis.
Ela nos fez pensar que não somos capazes de mudar nada, que tudo sempre foi assim, que a Humanidade não tem jeito e que nosso futuro é desesperador.
O apático é alguém que perde a batalha antes mesmo de enfrentá-la.
*   *   *
Elimina do teu vocabulário as frases pessimistas habituais, substituindo-as por equivalentes ideais.
Não digas: "Não posso"; "Não suporto mais"; "Desisto".
Faze uma mudança de paisagem mental e corrige-a por outras: "Tudo posso, quando quero"; "Suporto tudo quanto é para o meu bem" e "Prosseguirei ao preço do sacrifício, para a vitória que persigo".
A apatia é doença da alma, que a todos cumpre combater com as melhores disposições.
Na luta competitiva da vida terrestre, não há lugar para o apático.  Receando o labor bendito ou dele fugindo, mediante mecanismos de evasão inconsciente, a criatura se deixa envenenar pela psicosfera mórbida da autopiedade, procurando inspirar compaixão antes que despertar e motivar amor.
Reage com vigor à urdidura da apatia, do desinteresse.
Ora e vence o adversário sutil, que em ti procura alojamento, utilizando-se de justificativas falsas.
A lei do trabalho é impositivo das leis naturais que promovem o progresso e fomentam a vida.
Não é por outra razão que a tradição evangélica nos informa: “Ajuda-te e o céu te ajudará”, conclamando-nos à luta contra a apatia e os seus sequazes, que se fazem conhecidos como desencanto, depressão, cansaço e equivalentes.

(Redação do Momento Espírita, com base no poema Apatia, de Adélia Maria Woellner, e no cap. 35, do livroAlerta, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

MEDIUNIDADE

A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má.

(Lucas, 6:43)



O discurso de Jesus nesse tópico atingia mais profundidade, rumando para o Infinito, com objetivo de consolidar os Seus ensinamentos e exarar condutas lúcidas em relação ao futuro. As dificuldades vencidas a pouco e pouco, abriam espaço para novos desafios, e as perspectivas se apresentavam complexas senão desafiadoras.
Preocupado com a saúde integral dos Seus discípulos assim como daqueles que O seguiam, não podia deixar de abordar a transcendência do Espírito e o seu relacionamento psíquico com os homens terrestres.
Várias vezes, eles testemunharam o fenômeno atormentado da obsessão sob diversos aspectos, desde as convulsões de cunho epiléptico até as enfermidades físicas, as subjugações amesquinhantes e as alucinações mais frequentes. Também tomaram conhecimento da transfiguração diante de seres imortais e esplendentes no Monte Tabor, deslumbrados e comovidos.
Tornava-se, pois, indispensável desfazer a sombra coletiva, que pairava soberana sobre as pessoas sem orientação.
O povo estava tradicionalmente condicionado a aguardar que ocorressem espetáculos sobrenaturais em volta dos Profetas e de todos aqueles que se apresentavam em nome de Deus, como necessidade premente de manterem a débil claridade da fé quase sempre bruxuleante, que logo voltava a ser embrutecida pelas paixões decorrentes do egotismo perverso cultivado em exagero.
Porque pairasse um silêncio multissecular sobre o país a respeito do profetismo, quando antes era habitual, ao revelar-se o Messias, todos desejavam que o demonstrasse sem cessar, apesar dos inumeráveis sucessos que Ele produzia amiúde por onde passava.
A sede de novidades é sempre crescente nos indivíduos estúrdios e destituídos de percuciência para a identificação dos valores eternos e nobres da vida, permanecendo sem cessar à cata de distrações para fugirem da realidade de si mesmos e dos desafios que os surpreendem a todo momento, convidando-os ao crescimento interior.
Reconhecendo que seria breve o trânsito terrestre, e que o embuste e a mentira seguiriam no Seu encalço após a morte, foi peremptório, advertindo os amigos sobre a possibilidade do surgimento de falsos profetas, qual ainda ocorre nos dias atuais...
Como distingui-los? Quais os sinais de identificação que poderiam representar a sua autenticidade? E, de imediato, a imagem da árvore foi tomada como significativa e definidora da legitimidade de cada ser, irretorquível pelo seu conteúdo específico, graças ao qual, a árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má.
E óbvio que somente através dos atos, que revelam os valores morais de cada criatura, se pode avaliar se a mensagem de que alguém se faz portador é verdadeira.
Ninguém há que, dominado pela sombra, possa desvelar significados profundos, somente encontrados naquele que esteja identificado com a Fonte do Bem.
Mediante a conduta, portanto, os interesses e conveniências, se pode aquilatar sobre as qualidades morais do ser humano, porquanto são-lhe o documento digno de fé.
A ausência da sombra sempre favorece a presença do conhecimento e do discernimento, da ação oposta ao egoísmo, produzindo harmonia interna e não ambição, não competitividade vulgar e destruidora.
Autêntico em si mesmo, reflete o Psiquismo Superior da Vida e arrebanha outras criaturas, conduzindo-as na direção da plenitude, que já antegoza.
Adindo esclarecimentos à lição neotestamentária, posteriormente o Apóstolo S. João, na sua 1° Epístola, cap. IV, v.1, informou com sabedoria repassada de ternura:
- Meus bem-amados, não creiais em qualquer Espírito; experimentai se os Espíritos são de Deus, porquanto muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.
Justo confessar que, já no seu tempo, surgiram os impostores, desejando orientar as massas e auferir recursos para a sua sombra, responsável pelos transtornos que causavam.
Reconhecidos pelo caráter doentio, assim mesmo prosseguiam enganando outros semelhantes, que se compraziam nos jogos da mentira e da disputa irresponsável, pelos prazeres do ego alucinado.
A imagem da árvore é novamente trazida para avaliação, respondendo sabiamente a respeito da qualidade de que se revestem as interferências espirituais, as profecias que se referem à vida transcendental.
Nesse texto de alta magnitude, a Psicologia Profunda cede lugar à análise da Psicologia Transpessoal, porque mais compatível com a mensagem, que haure na Psicologia Espírita a explicação clara e significativa, interpretando o fenômeno, na área da mediunidade, que serve de instrumento para a pesquisa sobre a sobrevivência do ser à morte física assim como a sua anterioridade ao berço, e, no intervalo entre uma e outra existência, a comunicação real.
Esse capítulo profundo da Psicologia Transpessoal ilumina-se com a constatação de que a faculdade que permite o intercâmbio entre os dois planos vibratórios - o terrestre e o espiritual - é da alma, que o corpo reveste de células para permitir a sua ocorrência. É semelhante à inteligência que, de origem extrafísica, no soma encontra os neurônios e outras moléculas especiais para a sua exteriorização.
Entre os hebreus, o profetismo era relevante para caracterizar os enviados de Deus aos homens e às mulheres. No entanto, não estava adstrito o seu significado exclusivamente à produção de feitos excepcionais ou sobre-humanos.
Jesus, o Homem, podia movimentar as energias e comandá-las, direcionando-as conforme a Sua vontade.
Dialogava com os Espíritos enfermos que a morte não libertara dos conflitos que os afligiram, nem das paixões asselvajadas, conseguindo atendê-los e auxiliá-los nas aflições em que se debatiam.
Adentrando-se psiquicamente no futuro, descerrou então parte da cortina que o velava, entreteceu considerações incomuns sobre o Seu ministério, morte e ressurreição, apresentando no futuro as consequências da insânia e da soberba humana, conforme o Seu sermão profético, que se tem cumprido desde o momento da destruição do Templo de Jerusalém, que fora previsto, até à Diáspora, e dali aos acontecimentos históricos, que se hão apresentado na sucessão dos séculos.
A mediunidade, portanto, é de essência espiritual, exteriorizando-se sob a interferência e direcionamento dos Espíritos que, de acordo com a sua procedência, semeiam sombras e aturdimentos, enfermidades e desaires ou luz mirífica de esclarecimento, de caridade, de amor.
A Psicologia Profunda reconhece-Lhe o poder, em face da Sua integração na Consciência Cósmica, na qual adquiria sabedoria e
renovava as energias em intercâmbio transcendente, inabitual para os seres humanos.
A sombra coletiva, no entanto, prossegue inquietando, e os indivíduos, açodados pelo ego não superado, esperam o Messias que os liberte dos vícios e da indolência sem o auto esforço, que lhes conceda felicidade sem a ocorrência de vexames, sem lutas, esquecendo-se que, mesmo que tal absurdo se fizesse normal, não poderia impedir-lhes a ocorrência da morte física, o enfrentamento com a autoconsciência e com a Realidade.
Para atendê-los, no turbilhão das aventuras do cotidiano, surgem e são celebrizados homens e mulheres prodigiosos, que se afirmam profetas e Cristos, capazes de solucionar os problemas gerais, menos os próprios, nos quais estorcegam em desespero insano.
A árvore, representando a anima da mediunidade, oferece o fruto, seu animus, em perfeita identidade. Uma e outro definem pela produção a qualidade que os constitui.
O profeta e as suas revelações, o animus e a anima da imagem elucidadora, compõem a unidade que, pela qualidade demonstrará se a sua é uma origem saudável, verdadeira ou enfermiça da sombra mentirosa e petulante.
Jesus assimilou as ideologias vigentes naqueles dias, mas não se deteve nelas, pelo contrário, ergueu-lhes o véu que as deixava sob trevas, referindo-se à necessidade da conquista desse sentido paranormal, que se encontra inato nos seres humanos, a fim de que possam superar os limites em que se debatem, ampliando-lhes as percepções psíquicas, morais e emocionais.
O ser real, à luz da Psicologia Espírita, é eterno, experienciando inumeráveis renascimentos físicos e evoluindo no rumo da Grande Luz, que o impregnará com a claridade da paz.
Por essa razão, a árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má, prosseguindo como lição psicológica de seleção de valores humanos, auxiliando a que sejam identificados e reconhecidos os verdadeiros profetas – os médiuns das verdades espirituais - e que, através dos seus atos sem sombra, mereçam respeito e consideração ou simplesmente compaixão e socorro.

(Do livro "O Evangelho à Luz da Psicologia Profunda", Joanna de Angelis, psicografia de Divaldo P. Franco, FEB)



quinta-feira, 25 de junho de 2015

FUNDAMENTOS DO ESPIRITISMO




PERGUNTA – Se a Ciência, a Filosofia e o Evangelho são os fundamentos da Doutrina Espírita, como interpreta-los em sua justa significação?

RESPOSTA – Em Espiritismo, a Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina.
Com a primeira, há movimento de opiniões, com a segunda, temos a variedade dos pontos de vista na matéria interpretativas e, com o terceiro, encontramos a renovação da alma para a Eternidade.
A primeira modifica-se, dia a dia.
A segunda evolui e transforma o seu quadro de conceituação da vida.
O terceiro, porém, é imperecível roteiro de elevação.
A Ciência e a Filosofia são meios, o Evangelho é o fim.

No esforço científico e na perquirição filosófica, o homem pode gastar indefinido tempo à procura das causas profundas do destino e do ser.
No Evangelho, porém, o coração e o cérebro despertam para o caminho da própria sublimação. Dentro dele, não há lugar para ilações provisórias. Resplandece a luz em todos os seus ângulos divinos, compelindo a criatura a humanizar-se, a angelizar-se e a santificar-se para a união com o Pai Supremo.


Em síntese concentrada, reconhecemos que, se a Ciência e a Filosofia são fundamentos indiscutíveis de nossa Doutrina Consoladora, em torno delas, o espírito costuma vaguear longos séculos, ao redor de concepções puramente humanas, enquanto que, no Evangelho, encontra nossa alma a companhia do Amigo Celestial, com quem é possível alcançar o monte da iluminação para a Vida Infinita, sem escalas através das estações de prova desnecessária, com ruinosa perda de tempo e de energia na Obra do Senhor.

(Emmanuel, do livro "Doutrina e Aplicação", psicografia de Chico Xavier, FEB)

terça-feira, 9 de junho de 2015

O DISPENSADOR DE BENÇÃOS



Do ponto de vista sociológico, tratava-se de um grupelho. Aparelhados e inexperientes, a sua importância advinha da presença de Jesus, que os conduzia com sabedoria, esclarecendo-os quanto aos negócios da Boa Nova. Eles próprios não se davam conta da grandeza do compromisso a que se haviam vinculado. Nem mesmo haviam proposto interrogações. Deixaram-se arrastar pelo magnetismo do Nazareno que os fascinava, e seguiram-no, sem consciência da revolução que se estava delineando e na qual teriam papel relevante. Quase todos os eram de procedência humilde, alguns mesmo analfabetos, conhecedores dos textos sagrados mediante a tradição verbal, ignorando as interpretações teológicas ou o significado místico dos seus conteúdos. Acreditavam em Deus por atavismo, sem profundamento de informações, reverenciando-o conforme os hábitos simples que adotaram e mantinham. Jesus era um desafio constante, que lhes ultrapassava a capacidade de entendimento. O seu porte físico e a Sua estatura moral não podiam ser mensurados e sem mais reflexões, isso lhes bastava para amá-lo, segui-lo e confiar nEle. Muitos dos seus discursos lhes escapavam à compreensão; não obstante, quando a massa se diluía, o Mestre ministrava-lhes particulares observações e esclarecimento próprios. Nunca poderiam imaginar que seus nomes e sacrifícios ficariam imortais nas páginas da História e nos sentimentos humanos, eles que a nada ou quase nada ambicionavam, além do entendimento das suas e das necessidades familiares mais imediatas. As revoluções, porém, não são constituídas por personagens importantes, de destaque no mundo, famosas no conceito social. Tornaram-se conhecidas depois do holocausto, da expansão ideológica, de haverem extrapolado a própria dimensão. Os mártires da Doutrina, que os seguiram, eram também gente humilde, sedentas de paz e esfaimadas de amor, que se nutriam do pábulo divino da esperança em um mundo melhor, rico em fraternidade e perdão. Jesus fizera-se como um deles, a fim de melhor os conduzir, utilizando-se da sua linguagem e diminuindo as suas aflições. Embora os Seus fossem motivos mais importantes e quase inalcançáveis para eles, simplificou-os e conseguiu sensibilizá-los de tal forma, que se deixaram de pertencer para imolarem-se mais tarde pelo ideal. Essa extraordinária saga, a da construção do reino de Deus no mundo dos homens, é a mais notável conquista do espírito inteligente em nome da solidariedade e do humanismo. Pode-se imaginar, embora a grande distância no tempo e a diferença de circunstâncias, o que eram aquelas gentes modestas e afligidas pelas asperezas existenciais. Os seus objetivos muito imediatos, resumiam-se nos labores do cotidiano, na resignação a que eram submetidas pelas imposições sociais arbitrárias, na conquista do pão, da roupagem e da pequena propriedade em que residiam, sem mais amplas aspirações...
As doenças eram-lhes cruéis sicários, ao lado da pobreza, do desprestígio, das lutas entre si... Jesus apareceu-lhes e abre-lhes um elenco de novas possibilidades, oferecendo-lhes recursos incomuns, oportunidades antes jamais imaginadas e causa uma rápida mudança de conduta. Os interesses servis se avolumam e as paixões se engalfinham em disputas constantes, de modo a beneficiarem-se da Sua presença, a merecerem as Suas concessões...

A mensagem dele, de renovação e de libertação interior, passava quase desapercebida, por cuja razão estavam sempre avolumando o número de párias morais e desajustados sociais, para que pudessem ser atendidos. Assim, a Sua fama se espalhou por toda a região de Cafarnaum, na Galiléia. As pessoas famosas perdem o direito à privacidade, ao repouso, a si mesmas. Os seus atos são vigiados e os seus pensamentos perscrutados. Devem ser originais e representativas das ambições dos seus aficionados. Não lhes são facultadas horas de paz, nem desfrutam as oportunidades de seres normais. Com Jesus assim acontecia, logo a multidão infeliz, aquela assinalada pelas dores excruciantes, se adensava, aguardando milagres. A palavra milagre significava-lhes o impossível, como até hoje e isso atraia a curiosidade. Negavam-se a acreditar no Seu poder de alterar a estrutura de muitas ocorrências, por conhecê-las integralmente. Desse modo, quando Ele chegou a Cafarnaum, após haver discursado na sinagoga, os amigos pediram-lhe que atendesse à sogra de Pedro que ardia em febre. Magnânimo e superior às questiúnculas da saúde física, compreendia, no entanto, o que a mesma lhe significava, Ele cuidava da saúde real, aquela que responde pela externa, mas as pessoas se preocupavam de maneira equívoca. Assim, desejando fazer-se respeitado, Ele inclinou-se sobre ela, ordenou à febre e essa deixou-a. Erguendo-se, imediatamente começou a servi-los. Ao pôr do Sol, todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levaram-lhos, e Ele, impondo as mãos a cada um deles curava-os. Também de muitos saíam Espíritos, que gritavam e diziam: Tu és o Filho de Deus! Mas Ele repreendia-os e não os deixava falar, porque sabiam que Ele era o Messias, e a hora da revelação ainda não chegara. Cada questão em seu momento próprio, e era necessário preparar o campo, fertilizá-lo, a fim de que as sementes de luz pudessem germinar e o Novo Dia se instalasse nos corações. Terminada a tarefa junto dos aflitos pelos próprios erros, aos amarrados a tresvarios obsessivos por consciência culpada, aos desesperados por haverem perdido a direção de sim mesmos, o Mestre retirou-se, para sintonizar com Deus, a Inexaurível Fonte de Vida. Procurando insistentemente pelas sucessivas ondas de necessitados que chegavam, intérminas, Ele explicou: - Tenho também que anunciar a Boa Nova do reino de Deus às outras cidades, pois para que isso fui enviado. ... E saiu a pregar nos campos, nas aldeias, nas sinagogas, nas praças, nas praias, em toda a parte onde se fizesse necessário. A primavera espiritual que Ele iniciava jamais se transformaria em outono de desesperança ou de inverno de sofrimento insuportável, porque Ele permanecia para sempre como o incomparável dispensador de bênçãos, renovando as paisagens do mundo moral da criatura humana de todos os tempos futuros.

(Do livro "Até o Fim dos Tempos", Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco, LEAL)

sábado, 6 de junho de 2015

A MORTE ESPIRITUAL



A questão da morte espiritual é um dos novos  princípios que assinalam os progressos da ciência espírita. A maneira por que foi apresentada em certa teoria pessoal determinou, no primeiro momento, a sua rejeição, porque parecia implicar o aniquilamento, em dado tempo, do eu individual e assimilar as transformações da alma às da matéria, cujos elementos se desagregam para formar novos corpos. Os seres ditosos e aperfeiçoados seriam, na realidade, novos seres, o que é inadmissível. A eqüidade das penas e dos gozos futuros só se evidencia com a perpetuidade dos seres ascendendo a escala do progresso e depurando-se pelo trabalho e pelos esforços da vontade própria.
Tais as conseqüências que se podiam tirar, a priori, daquela teoria. Entretanto, devemos convir em que ela não foi apresentada com a empáfia de um orgulhoso que pretendesse impor o seu sistema. Disse modestamente o autor que apenas desejava lançar uma idéia no terreno da discussão, dado que dessa idéia poderia surgir uma verdade nova.
Ao parecer dos nossos eminentes guias espirituais, ele teria pecado menos quanto ao fundo, do que quanto à forma, que se prestou a uma falsa interpretação. Isso nos determina a estudar seriamente a questão. É o que tentaremos fazer, baseando-nos na observação dos fatos que ressaltam da situação do Espírito, em duas épocas, para ele, capitais: a da sua descida à vida corpórea e a do seu regresso à vida espiritual.
Por ocasião da morte corpórea, o Espírito entra em perturbação e perde a consciência de si mesmo, de sorte que jamais testemunha o último suspiro do seu corpo. Pouco a pouco a perturbação se dissipa e o Espírito se recobra, como um homem que desperta de profundo sono. Sua primeira sensação é a de estar livre do fardo carnal; segue-se o espanto, ao reparar no novo meio em que se encontra. Acha-se na situação de um a quem se cloroformiza para uma amputação e que, ainda adormecido, é levado para outro lugar. Ao acordar, ele se sente livre do membro que o fazia sofrer; muitas vezes, procura-o, surpreendido de não mais o possuir. Do mesmo modo, o Espírito, no primeiro momento, procura o corpo que tinha; descobre-o a seu lado; reconhece que é o seu e espanta-se de estar dele separado e só gradativamente se apercebe da sua nova situação.
Nesse fenômeno, apenas se operou uma mudança de situação material. Quanto ao moral, o Espírito é exatamente o que era algumas horas antes; por nenhuma modificação sensível passou; suas faculdades, suas idéias, seus gostos, seus pendores, seu caráter são os mesmos e as transformações que possa experimentar só gradativamente se operarão, pela influência do que o cerca. Em resumo, unicamente para o corpo houve morte; para o Espírito, apenas sono houve.
Na reencarnação, as coisas se passam de outra maneira.
No momento da concepção do corpo que se lhe destina, o Espírito é apanhado por uma corrente fluídica que, semelhante a uma rede, o toma e aproxima da sua nova morada. Desde então, ele pertence ao corpo, como este lhe pertencerá até que morra. Todavia, a união completa, o apossamento real somente se verifica por ocasião do nascimento.
Desde o instante da concepção, a perturbação ganha o Espírito; suas idéias se tornam confusas; suas faculdades se somem; a perturbação cresce à medida que os liames se apertam; torna-se completo nas últimas fases da gestação, de sorte que o Espírito não aprecia o ato de nascimento do seu corpo, como não aprecia o da morte deste; nenhuma consciência tem, nem de um, nem de outro.
Desde que a criança respira, a perturbação começa a dissipar-se, as idéias voltam pouco a pouco, mas em condições diversas das verificadas quando da morte do corpo.
No ato da reencarnação, as faculdades do Espírito não ficam apenas entorpecidas por uma espécie de sono momentâneo, conforme se dá quando do regresso à vida espiritual; todas, sem exceção, passam ao estado de latência. A vida corpórea tem por fim desenvolvê-las mediante o exercício, mas nem todas se podem desenvolver simultaneamente, porque o exercício de uma poderia prejudicar o de outra, ao passo que, por meio do desenvolvimento sucessivo, umas se firmam nas outras. Convém, pois, que algumas fiquem em repouso, enquanto outras aumentam. Esta a razão por que, na sua nova existência, pode o Espírito apresentar-se sob aspecto muito diferente, sobretudo se pouco adiantado for, do que tinha na existência precedente.
Num, a faculdade musical, por exemplo, será mais ativa; ele conceberá, perceberá e, portanto, fará tudo o que for necessário ao desenvolvimento dessa faculdade; noutra existência, tocará a vez à pintura, às ciências exatas, à poesia, etc. Enquanto estas novas faculdades se exercitarem, a da música estará latente, mas conservando o progresso que realizou. Resulta daí que quem foi artista numa existência, poderá ser um sábio, um homem de estado, ou um estrategista noutra, sendo nulo do ponto de vista artístico e reciprocamente.
O estado latente das faculdades na reencarnação explica o esquecimento das existências precedentes, enquanto que, por ocasião da morte, achando-se as faculdades em estado de sono pouco durável, a lembrança da vida que acaba de transcorrer é completa, ao despertar o Espírito na vida espiritual.
As faculdades que se manifestam estão naturalmente em relação com a posição que o Espírito tem de ocupar no mundo e com as provas que haja escolhido. Entretanto, acontece muitas vezes que os preconceitos sociais o desloquem, o que faz que certas pessoas estejam intelectual e moralmente acima ou abaixo da posição que ocupam. Esse deslocamento, pelos entraves que acarreta, faz parte das provas; cessará com o progresso. Numa ordem social avançada, tudo se regula de acordo com a lógica das leis naturais e aquele que apenas tiver aptidão para fabricar sapatos não será, por direito de nascimento, chamado a governar os povos.
Voltemos à criança. Até ao nascer, todas as faculdades se lhe encontram em estado latente, nenhuma consciência de si mesmo tem o Espírito. As que devam desenvolver-se não desabrocham de súbito no ato de nascer; o desenvolvimento delas acompanha o dos órgãos que terão de servir para as suas manifestações; por meio da atividade íntima em que se põem, elas impulsionam o desenvolvimento dos órgãos que lhes correspondem, do mesmo modo que o broto, ao nascer, força a casca da árvore. Daí resulta que, na primeira infância, o Espírito não goza em plenitude de nenhuma de suas faculdades, não só como encarnado, mas também como Espírito livre. Ele é verdadeiramente infantil, como o corpo a que se acha ligado, sem, contudo, estar neste comprimido penosamente. A não ser assim, Deus houvera feito da encarnação um suplício para todos os Espíritos, bons ou maus.
O mesmo, porém, não acontece com o idiota ou o cretino.Nestes, não se tendo os órgãos desenvolvido paralelamente às faculdades, o Espírito acaba por achar-se na posição de um homem preso por laços que lhe tiram a liberdade dos movimentos. Tal a razão por que se pode evocar o espírito de um idiota e obter respostas sensatas, ao passo que o de uma criança de muito pouca idade, ou que ainda não veio à luz, é incapaz de responder.
Todas as faculdades, todas as aptidões se encontram em gérmen no Espírito, desde a sua criação, mas em estado rudimentar, como todos os órgãos no primeiro filete do feto informe, como todas as partes da árvore na semente. O selvagem que mais tarde se tornará homem civilizado possui, pois, em si os germens que, um dia, farão dele um sábio, um grande artista, ou um grande filósofo.
À medida que esses germens chegam à maturidade, a Providência lhes dá, para a vida terrestre, um corpo apropriado às suas novas aptidões. É assim que o cérebro de um europeu é organizado de modo mais completo, provido de maior número de teclas, do que o do selvagem. Para a vida espiritual, dá-lhes um corpo fluídico, ou perispírito, mais sutil e impressionável por novas sensações. À proporção que o Espírito se engrandece, a natureza o provê dos instrumentos que lhe são necessários.
No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dispersão dos elementos, não há morte, senão para o invólucro material e o invólucro fluídico; mas, quanto à alma, ou Espírito, esse não pode morrer para progredir; de outro modo, ele perderia a sua individualidade, o que equivaleria ao nada. No sentido de transformação, regeneração, pode dizer-se que o Espírito morre a cada encarnação, para ressuscitar com atributos novos, sem deixar de ser o eu que era. Tal, por exemplo, um camponês que enriquece e se torna importante senhor. Trocou a choupana por um palácio, as roupas modestas por vestuários de brocado. Todos os seus hábitos mudaram, seus gostos, sua linguagem, até o seu caráter. Numa palavra, o camponês morreu, enterrou as vestes de grosseiro estofo, para renascer homem de sociedade, sendo sempre, no entanto, o mesmo indivíduo, porém transformado.
Cada existência corpórea é, pois, para o Espírito, um meio de progredir mais ou menos sensivelmente. De volta ao mundo dos Espíritos, leva para lá novas idéias; um horizonte moral mais dilatado; percepções mais agudas, mais delicadas. Vê e compreende o que antes não via, nem compreendia; sua visão que, a princípio, não ia além da última existência que tivera, passa a abranger sucessivamente as suas existências pretéritas, como o homem que sobe uma montanha e para quem o nevoeiro se vai dissipando, abrange com o olhar um horizonte cada vez mais vasto.
A cada novo estágio na erraticidade, novas maravilhas do mundo invisível se desdobram diante do seu olhar, porque, em cada um desses estágios, um véu se rasga. Ao mesmo tempo, seu envoltório fluídico se depura; torna-se mais leve, mais brilhante e mais tarde resplandecerá. É quase um novo Espírito; é o camponês desbastado e transformado. Morreu o Espírito velho, mas o eu é sempre o mesmo.

É assim, cremos, que convém se entenda a morte espiritual.

(Do livro "Obras Póstumas", Allan Kardec, FEB)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

PERANTE O MAL



A Lei de Talião representou um progresso nos costumes da Humanidade.
Em decorrência dela, a vingança passou a ter limites.
Antes, por conta de uma ofensa, considerava-se justo dizimar toda a família do ofensor.
Depois, passou a ser olho por olho e dente por dente.
Ou seja, o mal que se retribuía não podia ser maior do que o recebido.
Jesus Cristo veio trazer a contribuição definitiva nessa seara.
Assentou que não se deveria resistir ao mal.
Que se alguém batesse na face direita, era preciso oferecer também a esquerda.
Que se alguém tomasse a vestimenta, convinha deixar também a capa.
Que se alguém obrigasse a andar uma milha, era para andar com ele duas.
São palavras fortes e plenas de simbolismo.
Por certo não significam se deva permitir que a agressividade e a violência tomem conta da Terra.
Não constituem autorização ou incentivo a que os fracos se transformem em besta de carga dos fortes.
Seu significado profundo parece ser o de que apenas o amor é eficiente no enfrentamento com o mal e os maus.
O revide, o ressentimento e o desejo de vingança apenas prolongam os desequilíbrios humanos.
Sob a égide do Cristo, deve instalar-se uma nova ordem de paz e generosidade.
O discípulo de Jesus é pacífico e pacificador.
Ele é manso, compreensivo, ordeiro e confiante na Justiça Divina.
Perante uma ofensa, em geral três condutas são possíveis: revidar, fugir ou oferecer a outra face.
O revide implica a continuação da luta e do desequilíbrio.
A fuga transfere o clima de ódio para solução futura e denota fraqueza moral, que estimula o violento.
A última alternativa é, sem dúvida, a mais difícil.
Perante a ofensa, oferecer a face contrária, a do perdão.
Esse ato de grandeza, consistente na imediata compreensão do desequilíbrio que há em qualquer ato mau, desestabiliza o agressor.
De repente, ele se vê lamentável como é, perante a serenidade do ofendido.
A violência tende a morrer asfixiada no algodão da paz que envolve quem ama.
É impossível vencer alguém com grandeza moral.
Em face dele, toda vitória é aparente e com sabor de cinzas.
Alguém em paz e pronto a desapegar-se da manta e da capa.
Que tem paciência e caminha mais do que o solicitado ao lado de quem lhe impõe o esforço.
Certamente não é fácil adotar esse gênero de conduta.
Entretanto, Jesus não apenas ensinou, como exemplificou.
Soube doar-Se em holocausto e Sua proposta vitoriosa segue transformando lentamente a Humanidade.
E é dEle o convite que ressoa através dos séculos:

Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!

(Redação do Momento Espírita, com base no cap. 13, do livro A mensagem do amor imortal, pelo Espírito Amélia Rodrigues,psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL).
Em 25.5.2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

NÃO TEMAS


A tarefa, pela sua magnitude, parece-te impossível de ser conduzida pelas tuas fracas forças.
O compromisso, porque grave, faz-te crer improvável levá-lo com êxito, mediante o necessário equilíbrio.
O labor, considerando a sua extensão, produz-te receio.
O desafio, pelas responsabilidades que impõe, causa- te preocupação.

Não temas, porém.

Quanto te diga respeito, faze com a melhor doação de ti mesmo.
Se pretendes remover a montanha, inicia o trabalho retirando as primeiras pedras.
Não lograrás o pico sem transpores o obstáculo inicial.
Conjeturando, apenas, no como realizar o dever, deter-te-ás na meditação.
Pensa, planeja, mas atua.
Se outros fracassaram, o problema é deles. Esta, porém, é a tua vez, de que darás conta.
Sem a ação, ser-te-á difícil saber dos resultados.

A seara em festa é o prêmio ao trabalho de preparação do solo.
A catedral suntuosa cresceu de pedra em pedra, após a escavação da base.
A escultura monumental resultou do primeiro golpe e dos que o sucederam.
Estás fadado ao triunfo.
Responsabilidade constitui estímulo ao êxito. Receio, porém, é prejuízo na economia moral da vida.
Dinamiza as tuas forças ao império da vontade bem dirigida e conseguirás, facilmente, realizar os cometimentos em pauta.
O equilíbrio de que necessitas resultará do exercício e da vivência da ação enobrecedora, que empreendes.
Embora a convivência diária com o Mestre, acompanhando-Lhe as realizações transcendentais, ao vê-1o andando sobre o mar, os discípulos recearam. Compassivo e tranqüilo, no entanto, acalmou-os Jesus, dizendo-lhes: "Não temais! Sou eu."


Em qualquer labor com Cristo, não temas nunca. Ele estará sempre contigo.

(Joanna de Angelis, do livro "Roteiro de Libertação", psicografia de Divaldo Franco)

quarta-feira, 4 de março de 2015

OS DEMÔNIOS SEGUNDO O ESPIRITISMO


Segundo o Espiritismo, nem anjos nem demônios são entidades distintas, por isso que a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos materiais, esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo material, constituem o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os Espaços. Deus criou-os perfectíveis e deu-lhes por escopo a perfeição, com a felicidade que dela decorre. Não lhes deu, contudo, a perfeição, pois quis que a obtivessem por seu
próprio esforço, a fim de que também e realmente lhes pertencesse o mérito. Desde o momento da sua criação que os seres progridem, quer encarnados, quer no estado espiritual.
Atingido o apogeu, tornam-se puros espíritos ou anjos segundo a expressão vulgar, de sorte que, a partir do embrião do ser inteligente até ao anjo, há uma cadeia na qual cada um dos elos assinala um grau de progresso.
Do expresso resulta que há Espíritos em todos os graus de adiantamento, moral e intelectual, conforme a posição em que se acham, na imensa escala do progresso.
Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber, bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à idéia de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem.
Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons e tornaram-se maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente por Deus no ápice da escala, tendo dela decaído. Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia, negligência, obstinação ou má vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as conseqüências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas conseqüências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurandoentão melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento.
“Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda assim, contra a vontade.” Deus fornece-lhes constantemente os meios, porém, com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio; mas o primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio. Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação, passando, como os demais, pela rota comum.
Chegados a certo grau de pureza, os Espíritos têm missões adequadas ao seu progresso; preenchem assim todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes categorias.
E como Deus criou de toda a eternidade, segue-se que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer às necessidades do governo universal. Deste modo uma só espécie de seres inteligentes, submetida à lei de progresso, satisfaz todos os fins da Criação.
Por fim, a unidade da Criação, aliada à idéia de uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito, corresponde melhor à justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privilégios.
A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento.
Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?

Hoje, porém, alargou-se o circulo das idéias: o homem vê mais claro e tem noções mais precisas de justiça; desejando-a para si e nem sempre encontrando-a na Terra, ele quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no Céu. E aqui está por que lhe repugna à razão toda e qualquer doutrina, na qual não resplenda a Justiça Divina na plenitude integral da sua pureza.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

POR QUE OS ESPÍRITAS NÃO TEMEM A MORTE


A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação; aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.
Eis aí por que os espíritas encaram a morte calmamente e se revestem de serenidade nos seus últimos momentos sobre a Terra. Já não é só a esperança, mas a certeza que os conforta; sabem que a vida futura é a continuação da vida terrena em melhores condições e aguardam-na com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança decorrem, outrossim, dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e bondade de Deus, correspondendo às íntimas aspirações da Humanidade.
Para os espíritas, a alma não é uma abstração; ela tem um corpo etéreo que a define ao pensamento, o que muito é para fixar as idéias sobre a sua individualidade, aptidões e percepções. A lembrança dos que nos são caros repousa sobre alguma coisa de real. Não se nos apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao pensamento, porém sob uma forma concreta que antes no-los mostra como seres viventes. Além disso, em vez de perdidos nas profundezas do Espaço, estão ao redor de nós; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações, assistindo-se mutuamente.

Não mais permissível sendo a dúvida sobre o futuro, desaparece o temor da morte; encara-se a sua aproximação a sangue-frio, como quem aguarda a libertação pela porta da vida e não do nada.

(Do livro O Céu e o Inferno, cap. 2, item 10, FEB)