segunda-feira, 24 de agosto de 2015

COMBATE INTERIOR




“Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.” – Paulo. (Filipenses, 1:30.)
Em plena juventude, Paulo terçou armas contra as circunstâncias comuns, de modo a consolidar posição para impor-se no futuro da raça. Pelejou por sobrepujar a inteligência de muitos jovens que lhe foram contemporâneos, deixou colegas e companheiros distanciados. Discutiu com doutores da Lei e venceu-os. Entregou-se à conquista de situação material invejável e conseguiu-a.
Combateu por evidenciar-se no tribunal mais alto de Jerusalém e sobrepôs-se a velhos orientadores do povo escolhido. Resolveu perseguir aqueles que interpretava por inimigos da ordem estabelecida e multiplicou adversários em toda parte. Feriu, atormentou, complicou situações de amigos respeitáveis, sentenciou pessoas inocentes a inquietações inomináveis, guerreou pecadores e santos, justos e injustos...
Surgiu, contudo, um momento em que o Senhor lhe convoca o espírito a outro gênero de batalha – o combate consigo mesmo.
Chegada essa hora, Paulo de Tarso cala-se e escuta...
Quebra-se-lhe a espada nas mãos para sempre.
Não tem braços para hostilizar e sim para ajudar e servir.
Caminha, modificado, em sentido inverso. Ao invés de humilhar os outros, dobra a própria cerviz.
Sofre e aperfeiçoa-se no silêncio, com a mesma disposição de trabalho que o caracterizava nos tempos de cegueira.
É apedrejado, açoitado, preso, incompreendido muitas vezes, mas prossegue sempre, ao encontro da Divina Renovação.
Se ainda não combates contigo mesmo, dia virá em que serás chamado a semelhante serviço.

Ora e vigia, prepara-te e afeiçoa o coração à humildade e à paciência. Lembra-te, meu irmão, de que nem mesmo Paulo, agraciado pela visita pessoal de Jesus, conseguiu escapar.

(Do livro "Pão Nosso", Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, FEB)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

UM DIA



Um dia, Colombo resolveu empreender a grande viagem, rumo ao mundo novo e descobriu o caminho para a América.
Um dia, a jovem polonesa Maria Sklodowska decidiu buscar a Cidade Luz para iluminar o próprio intelecto.
Adentrou a Universidade da Sorbonne e, entusiasmada pela pesquisa, descobriu o radium, que salva vidas todos os dias.
Um dia, Francisco Bernardone saiu do lar paterno, abandonou a si mesmo e dedicou sua vida a iluminar outras vidas.
Um dia, Madalena, a mulher atormentada por Espíritos infelizes, conheceu Jesus.
Ofereceu-se à virtude e inscreveu seu nome na História, figurando como daquelas almas inesquecíveis.
Um dia, a caminho de Damasco, o rabino Saulo teve um encontro com o Nazareno e mudou sua forma de ver o mundo.
Serviu a Jesus até a morte, entregando-se em holocausto por amor à verdade que distribuiu aos povos.
Um dia, Levi deixou a coletoria onde servia a César, e foi servir ao Mestre de Nazaré.
Deixou de anotar mercadorias, dracmas e bens ilusórios, para registrar para a posteridade os ditos e os feitos do Senhor.
Legou ao mundo o Evangelho segundo Mateus, que inicia com a genealogia de Jesus e conclui com a gloriosa ressurreição.
No dia de Pentecostes, os Apóstolos iniciaram o seu ministério e derramaram pela Terra as bênçãos das claridades do reino de Deus.
Judas era um discípulo fiel a Jesus. Mas, um dia, acreditou mais no poder frágil da Terra do que na administração do céu, e perdeu a si mesmo.
Tudo no Universo começa um dia. Tudo, no mundo dos homens, começa um dia.
Os grandes impérios, as extensas jornadas, as gigantescas construções.
O bem e o mal, a felicidade e o infortúnio, a alegria e a dor guardam o exato momento de início.
Quando plantamos, sabemos que um dia surgirá a produção. Num dia se semeia, em outro se colhe.
Se entregamos o dia para a erva ingrata, ela se alastrará, sufocando o horto.
Se abandonamos os minutos aos vermes daninhos, eles se multiplicarão, impedindo a colheita.
Das resoluções de uma hora, podem sobrevir acontecimentos para mil anos.
Do gesto impensado de um momento, podem advir consequências danosas para muitos anos.
Da correta decisão de um instante, pode se delinear o panorama de alegrias para logo mais.
Tudo depende da nossa atitude na intimidade do tempo.
O amanhã será sempre aquilo que hoje projetamos. Alcançaremos o que procuramos.
Seremos o que desejamos.
Acordemos para a realidade do momento e amontoemos bênçãos, prestando serviços em nossas horas.
Um dia chegará em que necessitaremos dos braços amigos que hoje conquistamos, dos afetos que hoje aninhamos, dos bens que hoje produzimos.

O tempo é o rio da vida, cujas águas nos devolvem o que lhe atiramos.
Enquanto dispomos das horas, realizemos a boa semeadura.
Se acreditamos no bem e a ele atendemos, cedo atingiremos a messe da felicidade.
Contudo, se desrespeitamos o tempo, desacreditando o valor do dia, em algum momento, agora, ou mais tarde, faremos a colheita amarga das horas vazias e dos momentos ociosos.
Pensemos nisso!

(Redação do Momento Espírita, com base no cap. Um dia, pelo Espírito Isabel de Castro, do livro  Falando à Terra, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. FEB)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O GRANDE ENIGMA


Há uma finalidade, há uma Lei no Universo? Ou esse Universo é apenas um abismo no qual o pensamento se perde por falta de ponto de apoio, em que gire sobre si mesmo, igual à folha morta ao influxo do vento? Existe uma força, uma esperança, uma certeza que nos possa elevar acima de nós mesmos a um fim superior, a um princípio, a um Ser em que se identifiquem o bem, a verdade, a sabedoria? Ou terá havido em nós e em redor de nós apenas dúvida, incerteza e trevas? O homem, o pensador, sonda com o olhar a vasta extensão; interroga as profundezas do céu; procura a solução desses grandes problemas: o problema do mundo, o problema da vida. Considera esse majestoso Universo, no qual se sente como que mergulhado; acompanha com os olhos a carreira dos gigantes do Espaço, sóis da noite, focos terríficos cuja luz percorre as imensidades taciturnas; interroga esses astros, esses mundos inumeráveis, mas estes passam mudos, prosseguindo em seu rumo, para um fim que ninguém conhece. Silêncio esmagador paira sobre o abismo, envolve o homem, torna esse Universo mais solene ainda. Duas coisas, no entanto, nos aparecem à primeira vista no Universo: a matéria e o movimento, a substância e a força. Os mundos são formados de matéria e essa matéria, inerte por si mesma, se move. Quem, pois, a faz mover-se? Qual é essa força que a anima? Primeiro problema. 

Mas o homem, do infinito, chama sobre si mesmo sua atenção. Essa matéria e essa força universais ele encontra em si mesmo e, com elas, um terceiro elemento, com o qual conheceu, viu e mediu os outros: a Inteligência. Entretanto, a inteligência humana não é, por si só, sua própria causa. Se o homem fosse sua própria causa, poderia manter e conservar o poder da vida que está em si; mas, em verdade, esse poder, sujeito a variações, a desfalecimentos, excede à vontade humana. Se a inteligência existe no homem, deve encontrar-se nesse Universo de que faz parte integrante. O que existe na parte deve encontrar-se no todo. A matéria não é mais que a vestimenta, a forma sensível e mutável, revestida pela vida; um cadáver não pensa, nem se move. A força é um simples agente destinado a entreter as forças vitais. É, pois, a inteligência que governa os mundos. Essa inteligência se manifesta por leis sábias e profundas, ordenadoras e conservadoras do Universo. Todas as pesquisas, todos os trabalhos da ciência contemporânea, concorrem para demonstrar a ação das leis naturais, que uma Lei suprema liga, abraça, para constituir a universal harmonia. Por essa lei, uma Inteligência soberana se revela à razão mesma das coisas, Razão consciente, Unidade universal para onde convergem, ligando-se e fundindo-se, todas as relações, aonde todos os seres vêm haurir a força, a luz e a vida; Ser absoluto e perfeito, fundamente imutável e fonte eterna de toda a ciência, de toda a verdade, de toda a sabedoria, de todo o amor.  Algumas objeções são, no entanto, de prever. Pode-se dizer, por exemplo: as teorias sobre a matéria, sobre a força, sobre a inteligência, tais as que formulavam outrora as escolas científicas e filosóficas, tiveram o seu tempo. Novas concepções as substituem. A física atual nos demonstra que a matéria se dissocia pela análise, se resolve em centros de forças, e que a força se reabsorve no éter universal. Sim, certamente, os sistemas envelhecem e passam; as fórmulas gastam-se; mas a idéia eterna reaparece sob formas cada vez mais novas e mais ricas. Materialismo e espiritualismo são aspectos transitórios do conhecimento. Nem a Matéria, nem o Espírito são o que deles pensavam as escolas de outrora, e talvez a matéria, o pensamento e a vida estejam ligados por laços estreitos, que começamos a entrever. Certos fatos, no entanto, subsistem e outros problemas se impõem. A matéria e a força se reabsorvem no éter; mas, que é o éter? É, diz-nos, a matéria-prima, o substrato definitivo de todos os movimentos. O próprio éter é atravessado por movimentos inumeráveis: radiações luminosas e caloríficas, correntes de eletricidade e de magnetismo. Ora, é perfeitamente necessário que esses movimentos sejam regulados de certa maneira. A força gera o movimento, mas a força não é a lei. Cega e sem guia, ela não poderia produzir a ordem e a harmonia no Universo. Estas são, no entanto, manifestas. No cimo da escala das forças aparece a energia mental, a vontade que constrói as fórmulas e fixa as leis. A inércia, dir-nos-ão, ainda é relativa, visto que a matéria é energia concentrada. Na realidade, todas as partes constitutivas de um corpo se movem. Entretanto, a energia armazenada nesses corpos só pode entrar em potência de ação quando a matéria componente é dissociada. Não é o caso dos planetas, cujos elementos representam a matéria em seu último grau de concreção. Seus movimentos não se podem explicar por uma força interna, mas somente pela intervenção de uma energia exterior. – “A inércia – diz G. Le Bon  – é a resistência de causa desconhecida, que os corpos opõem ao movimento ou mudança de movimento. Ela é suscetível de medida que se define pelo termo massa. A massa é, pois, a medida da inércia da matéria, seu coeficiente de resistência ao movimento.”

Desde Pitágoras até Claude Bernard, todos os pensadores afirmam que a matéria é desprovida de espontaneidade. Toda tentativa de emprestar à substancia inerte uma espontaneidade – capaz de organizar e de explicar a força – tem sido em vão. É preciso, pois, aceitar a necessidade de um primeiro motor transcendente para explicar o sistema do mundo. A mecânica celeste não se explica por si mesma, e a existência de um motor inicial se impõe. A nebulosa primitiva, mãe do Sol e dos planetas, era animada de um movimento giratório. Mas quem lhe imprimira esse movimento? Respondemos sem hesitar: Deus. É somente a ciência contemporânea que nos revela Deus, o Ser Universal? O homem interroga a história da Terra; evoca a memória das multidões mortas, das gerações que repousam sob a poeira dos séculos; interroga a fé crédula dos simples e a fé raciocinada dos sábios; e, por toda parte, acima das opiniões contraditórias e das polêmicas das escolas, acima das rivalidades de casta, de interesses e de paixões, ele vê os transportes, as aspirações do pensamento humano para a Causa que vela, augusta e silenciosa, sob o véu misterioso das coisas. Em todos os tempos e em todos os meios a queixa humana sobe para esse Espírito divino, para essa Alma do mundo que se honra sob nomes diversos, mas que, sob tantas denominações – Providência, grande Arquiteto, Ser supremo, Pai celeste –, é sempre o Centro, a Lei, a Razão universal, em que o mundo se conhece, se possui, encontra sua consciência e seu eu. E é assim que, acima desse incessante fluxo e refluxo de elementos passageiros e mutáveis, acima dessa variedade, dessa diversidade infinita dos seres e das coisas que constituem o domínio da Natureza e da Vida, o pensamento encontra no Universo esse princípio fixo, imutável, essa Unidade consciente em que se unem a essência e a substância, fonte primeira de todas as consciências e de todas as formas, visto que consciência e forma, essência e substância, não podem existir uma sem a outra. Elas se unem para constituir essa Unidade viva, esse Ser absoluto e necessário, fonte de todos os seres, ao qual chamamos Deus. A linguagem humana é, entretanto, impotente para exprimir a idéia do Ser infinito. Desde que nos servimos de nomes e de termos, limitamos o que é sem limites. Todas as definições são insuficientes e, de certo modo, induzem o erro. Entretanto, o pensamento para se exprimir precisa de termo. O menos afastado da realidade é aquele pelo qual os padres do Egito designavam Deus: Eu sou, isto é, eu sou o Ser por excelência, absoluto, eterno, e do qual emanam todos os seres. Um mal-entendido secular divide as escolas filosóficas quanto a estas questões. O materialismo via no Universo somente a substância e a força. Parecia ignorar os estados quintessenciados, as transformações infinitas da matéria. O espiritualismo vê em Deus só o princípio espiritual e não considera imaterial tudo o que não cai sob os nossos sentidos. Ambos se enganam. O mal-entendido que os separa cessará quando os materialistas virem em seu princípio e os espiritualistas em seu Deus a fonte dos três elementos: substância, força, inteligência, cuja união constitui a vida universal. Por isso, basta compreender duas coisas: se se admite que a substância esteja fora de Deus, Deus não é infinito, e, pois que a consciência existe no mundo atual, é preciso evidentemente que ela se encontre naquilo que tem sido o Princípio do mundo. Mas a Ciência, depois de se haver retardado durante meio século nos desertos do materialismo e do positivismo, depois de ter reconhecido a esterilidade deles, a ciência atual modificou a sua orientação. Em todos os domínios: física, química, biologia, psicologia, ela se encaminha hoje, a passo decidido, para essa grande unidade que se entrevê no fundo de tudo. Por toda parte ela reconhece a unidade de forças, a unidade de leis. Atrás de toda substância em movimento encontra-se a força, e a força não é senão a projeção do pensamento, da vontade na substância. A eterna criação, a eterna renovação dos seres e das coisas é tão-somente a projeção constante do pensamento divino no Universo. Pouco a pouco, o véu se levanta; o homem começa a entrever a evolução grandiosa da vida na superfície dos mundos. Ele vê a correlação das forças e a adaptação das formas e dos órgãos em todos os meios; sabe que a vida se desenvolve, se transforma e se apura à medida que percorre sua espiral imensa; compreende que tudo está regulado visando a um fim, que é o aperfeiçoamento contínuo do ser e o crescimento nele da soma do bem e do belo. Mesmo neste mundo, ele pode seguir essa lei majestosa do progresso, através de todo o lento trabalho da Natureza, desde as formas ínfimas do ser, desde a célula verde flutuando no seio das águas, até o homem consciente no qual a unidade da vida se afirma, e acima dele, de grau em grau, até o infinito. E essa ascensão só se compreende, só se explica pela existência de um princípio universal, de uma energia incessante, eterna, que penetra toda a Natureza; é ela quem regula e estimula essa evolução colossal dos seres e dos mundos para o melhor, para o bem. Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – do qual é a representação sensível –, mas não se confunde com este. De igual maneira que em nós a unidade consciente, a Alma, o eu, persiste no meio das modificações incessantes da matéria corporal, assim, no meio das transformações do Universo e da incessante renovação de suas partes, subsiste o Ser que é a Alma, a consciência, o eu que o anima e lhe comunica o movimento e a vida. E esse grande Ser, absoluto, eterno, que conhece as nossas necessidades, ouve o nosso apelo, nossas preces, que é sensível às nossas dores, é qual o imenso foco em que todos os seres, pela comunhão do pensamento e do sentimento, vêm haurir forças, o socorro, as inspirações necessárias para guiá-los na senda do destino, sustê-los em suas lutas, consolá-los em suas misérias, levantá-los em seus desfalecimentos e em suas quedas. Não procures Deus nos templos de pedra e de mármore, ó homem que o queres conhecer, e sim no templo eterno da Natureza, no espetáculo dos mundos a percorrer o Infinito, nos esplendores da vida que se expande em sua superfície, na vista dos horizontes variados: planícies, vales, montanhas e mares que a tua morada terrestre te oferece. Por toda parte, à luz brilhante do dia ou sob o manto constelado das noites, à margem dos oceanos tumultuosos, e assim na solidão das florestas, se te sabes recolher, ouvirás as vozes da Natureza e os sutis ensinamentos que murmuram ao ouvido daqueles que freqüentam suas solidões e estudam seus mistérios. A Terra voga sem ruído na extensão. Essa massa de dez mil léguas de circuito desliza sobre as ondas do éter qual um pássaro no Espaço, qual um mosquito na luz. Nada denuncia sua marcha imponente. Nenhum ranger de rodas, nenhum murmúrio de vagas sob seus flancos. Silenciosa, ela passa, rola entre suas irmãs do céu. Toda a potente máquina do Universo se agita; os milhões de sóis e de mundos que a compõem, mundos perto dos qual o nosso vale por uma criança, todos se deslocam, se entrecruzam, prosseguem suas evoluções com velocidades aterradoras, sem que som algum ou qualquer choque venha trair a ação desse gigantesco aparelho. O Universo continua calmo. É o equilíbrio absoluto; é a majestade de um poder misterioso, de uma Inteligência que não se impõe, que se esconde no seio das coisas, e cuja presença se revela ao pensamento e ao coração, e que atrai o pesquisador qual a vertigem do abismo. Se a Terra evolucionasse com estrondo, se o mecanismo do mundo se regulasse com fracasso, os homens, aterrorizados, curvarse-iam e creriam. Mas, não! A obra formidável se executa sem esforço. Globos e sóis flutuam no Infinito, tão livres quanto plumas sob a brisa. Avante, sempre avante! O rondar das esferas se efetua guiado por uma potência invisível. A vontade que dirige o Universo se disfarça a todos os olhares. As coisas estão dispostas de maneira que ninguém é obrigado a lhes dar crédito. Se a ordem e a harmonia do Cosmos não bastam para convencer o homem, este é livre no conjeturar. Nada constrange o céptico para ir a Deus. O mesmo acontece às coisas morais. Nossas existências se desenrolam e os acontecimentos se sucedem sem ligação aparente; mas, a imanente justiça domina ao alto e regula nossos destinos segundo um princípio imutável, pelo qual tudo se encadeia em uma série de causas e de efeitos. Seu conjunto constitui uma harmonia que o espírito emancipado de preconceitos, iluminado por um raio da Sabedoria, descobre e admira. Que nós sabemos do Universo? Nossa vista só percebe um conjunto restrito do império das coisas. Somente os corpos materiais, à nossa semelhança, a afetam. A matéria sutil e difusa nos escapa. Vemos o que há de mais grosseiro, em tudo que nos cerca. Todos os mundos fluídicos, todos os círculos onde a vida superior se agita, a vida radiosa, se eclipsam aos olhos humanos. Distinguimos apenas os mundos opacos e pesados que se movem nos céus. O Espaço que os separa nos parece vazio. Por toda parte, profundos abismos parecem abrir-se. Erro! O Universo está cheio. Entre essas moradas materiais, no intervalo desses mundos planetários, prisões ou presídios flutuam no Espaço, outros domínios da Vida se estendem, vida espiritual, vida gloriosa, que nossos sentidos espessos não podem perceber porque, sob suas radiações, quebraria qual se rompe o vidro ao choque de uma pedra. A sábia Natureza limitou nossas percepções e nossas sensações. É degrau a degrau que ela nos conduz no caminho do saber. É lentamente, trecho por trecho, vidas depois de vidas, que ela nos leva ao conhecimento do Universo, seja visível, seja oculto. O ser sobe, um a um, os degraus da escadaria gigantesca que conduz a Deus. E cada um desses degraus representa para o ser uma longa série de séculos. Se os mundos celestes nos aparecessem de repente, sem véus, em toda a sua glória, ficaríamos aturdidos, cegos. Mas, nossos sentidos exteriores foram medidos e limitados. Eles avultam e se apuram à medida que o ser se eleva na escala da existência e dos aperfeiçoamentos. O mesmo se dá com o conhecimento, a possessão das leis morais. O Universo se desvenda aos nossos olhos à proporção que a nossa capacidade de compreender as suas leis se desenvolve e engrandece. Lenta é a incubação das Almas sob a luz divina. É a ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te dêem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor. Onde estás, em que céus profundos, misteriosos, tu te escondes? Quantas Almas acreditaram que bastaria, para te encontrar, o deixar a Terra! Mas tu te conservas invisível no mundo espiritual, quanto no mundo terrestre, invisível para aqueles que não adquiriram ainda a pureza suficiente para refletir teus divinos raios. Tudo revela e manifesta, no entanto, tua presença. Tudo quanto na Natureza e na Humanidade canta e celebra o amor, a beleza, a perfeição, tudo que vive e respira é mensagem de Deus. As forças grandiosas que animam o Universo proclamam a realidade da Inteligência divina; ao lado delas, a majestade de Deus se manifesta na História, pela ação das grandes Almas que, semelhantes a vagas imensas, trazem às plagas terrestres todas as potências da obra de sabedoria e de amor. E Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha.


Homens! Aprendei a imergir em vós mesmos, a esquadrinhar os mais íntimos recônditos do vosso ser; interrogai-vos no silêncio e no retiro. E aprendereis a reconhecer-vos, a conhecer o poder escondido em vós. É ele que leva e faz resplandecer no fundo de vossas consciências as santas imagens do bem, da verdade, da justiça, e é honrando essas imagens divinas, rendendo-lhes um culto diário, que essa consciência, ainda obscura, se purifica e se ilumina. Pouco a pouco, a luz se engrandece em nós outros. De igual modo que gradualmente, de maneira insensível, as sombras dão lugar à luz do dia, assim a Alma se ilumina das irradiações desse foco que reside nela e faz desabrochar, em nosso pensamento e em nosso coração, formas sempre novas, sempre inesgotáveis de verdade e de beleza. E essa luz é também harmonia penetrante, voz que canta na alma do poeta, do escritor, do profeta, e os inspira e lhes dita as grandes e fortes obras, nas quais eles trabalham para elevação da Humanidade. Mas, sentem essas coisas apenas aqueles que, tendo dominado a matéria, se tornaram dignos dessa comunhão sublime, por esforços seculares, aqueles cujo senso íntimo se abriu às impressões profundas e conhece o sopro potente que atiça os clarões do gênio, sopro que passa pelas frontes pensativas e faz estremecer os envoltórios humanos.

(Do livro "O Grande Enigma", Léon Dennis, FEB)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

TUDO PASSA


Todas as coisas, na Terra, passam...
Os dias de dificuldades, passarão...
Passarão também os dias de amargura e solidão...
As dores e as lágrimas passarão.
As frustrações que nos fazem chorar...
um dia passarão.
A saudade do ser querido que está longe, passará.

Dias de tristeza... 
Dias de felicidade... 
São lições necessárias que, na Terra, passam,
deixando no espírito imortal as experiências acumuladas.

Se hoje, para nós, é um desses dias repletos de amargura,
paremos um instante.

Elevemos o pensamento ao Alto, e busquemos a voz suave da Mãe amorosa
a nos dizer carinhosamente:
isso também passará...

E guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas,
que não há mal que dure para sempre.

O planeta Terra, semelhante a enorme embarcação,
às vezes parece que vai soçobrar diante das turbulências de gigantescas ondas.

Mas isso também passará,
porque Jesus está no leme dessa Nau,
e segue com o olhar sereno de quem guarda a certeza de que a agitação faz parte do roteiro
evolutivo da humanidade,
e que um dia também passará...

Ele sabe que a Terra chegará a porto seguro,
porque essa é a sua destinação.

Assim, façamos a nossa parte o melhor que pudermos,
sem esmorecimento, e confiemos em Deus, aproveitando cada segundo, 
cada minuto que, por certo...
também passarão..."

Tudo passa... exceto Deus!
Deus é o suficiente!

(Emmanuel, psicografia de Chico Xavier)

terça-feira, 21 de julho de 2015

APATIA



Olhando só para o chão, percebeu apenas o movimento das sombras sem cor.
Sem coragem de olhar para o céu, deixou de ver o voo azul das borboletas.

Apatia é doença da alma.
Congela a vontade, paralisa os movimentos, faz-nos estátuas vivas.
Vivos-mortos que perdem o sentido de viver, que cedem ao automatismo dos dias, que adquirem visão monocromática de tudo e de todos.
Indiferença. Os apáticos sofrem do vício da indiferença.
Acostumaram-se com as notícias ruins, as desgraças, os flagelos destruidores, e tais fatos nem mais lhes tocam o coração. Não são capazes nem de enviar bons pensamentos às vítimas.
Uma prece? Não. Prece é coisa de religioso fanático. – Dizem ou pensam.
Acostumaram-se com o jeitinho, esquecendo que tal maneira de negociar ou resolver as questões é apenas corrupção disfarçada.
Acostumaram-se com as lágrimas dos outros e elas não mais os emocionam. Foram obrigados a represar suas emoções. Expressar emoções é para os fracos. – Cochicham.
Acostumaram-se com o mal... inacreditavelmente.

Acostumamo-nos a olhar mais para o chão do que para o céu, esta é a verdade, e depois de um tempo nem achamos o chão tão ruim assim...
Isso é gravíssimo, pois se perde a referência de algo melhor, de algo maior, e todos precisamos mirar alto para poder crescer.
A apatia nos aprisionou em estruturas de pensamentos absurdas, nos aprisionou à falta de emoções e em comportamentos robóticos insensíveis.
Ela nos fez pensar que não somos capazes de mudar nada, que tudo sempre foi assim, que a Humanidade não tem jeito e que nosso futuro é desesperador.
O apático é alguém que perde a batalha antes mesmo de enfrentá-la.
*   *   *
Elimina do teu vocabulário as frases pessimistas habituais, substituindo-as por equivalentes ideais.
Não digas: "Não posso"; "Não suporto mais"; "Desisto".
Faze uma mudança de paisagem mental e corrige-a por outras: "Tudo posso, quando quero"; "Suporto tudo quanto é para o meu bem" e "Prosseguirei ao preço do sacrifício, para a vitória que persigo".
A apatia é doença da alma, que a todos cumpre combater com as melhores disposições.
Na luta competitiva da vida terrestre, não há lugar para o apático.  Receando o labor bendito ou dele fugindo, mediante mecanismos de evasão inconsciente, a criatura se deixa envenenar pela psicosfera mórbida da autopiedade, procurando inspirar compaixão antes que despertar e motivar amor.
Reage com vigor à urdidura da apatia, do desinteresse.
Ora e vence o adversário sutil, que em ti procura alojamento, utilizando-se de justificativas falsas.
A lei do trabalho é impositivo das leis naturais que promovem o progresso e fomentam a vida.
Não é por outra razão que a tradição evangélica nos informa: “Ajuda-te e o céu te ajudará”, conclamando-nos à luta contra a apatia e os seus sequazes, que se fazem conhecidos como desencanto, depressão, cansaço e equivalentes.

(Redação do Momento Espírita, com base no poema Apatia, de Adélia Maria Woellner, e no cap. 35, do livroAlerta, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. LEAL)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

MEDIUNIDADE

A árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má.

(Lucas, 6:43)



O discurso de Jesus nesse tópico atingia mais profundidade, rumando para o Infinito, com objetivo de consolidar os Seus ensinamentos e exarar condutas lúcidas em relação ao futuro. As dificuldades vencidas a pouco e pouco, abriam espaço para novos desafios, e as perspectivas se apresentavam complexas senão desafiadoras.
Preocupado com a saúde integral dos Seus discípulos assim como daqueles que O seguiam, não podia deixar de abordar a transcendência do Espírito e o seu relacionamento psíquico com os homens terrestres.
Várias vezes, eles testemunharam o fenômeno atormentado da obsessão sob diversos aspectos, desde as convulsões de cunho epiléptico até as enfermidades físicas, as subjugações amesquinhantes e as alucinações mais frequentes. Também tomaram conhecimento da transfiguração diante de seres imortais e esplendentes no Monte Tabor, deslumbrados e comovidos.
Tornava-se, pois, indispensável desfazer a sombra coletiva, que pairava soberana sobre as pessoas sem orientação.
O povo estava tradicionalmente condicionado a aguardar que ocorressem espetáculos sobrenaturais em volta dos Profetas e de todos aqueles que se apresentavam em nome de Deus, como necessidade premente de manterem a débil claridade da fé quase sempre bruxuleante, que logo voltava a ser embrutecida pelas paixões decorrentes do egotismo perverso cultivado em exagero.
Porque pairasse um silêncio multissecular sobre o país a respeito do profetismo, quando antes era habitual, ao revelar-se o Messias, todos desejavam que o demonstrasse sem cessar, apesar dos inumeráveis sucessos que Ele produzia amiúde por onde passava.
A sede de novidades é sempre crescente nos indivíduos estúrdios e destituídos de percuciência para a identificação dos valores eternos e nobres da vida, permanecendo sem cessar à cata de distrações para fugirem da realidade de si mesmos e dos desafios que os surpreendem a todo momento, convidando-os ao crescimento interior.
Reconhecendo que seria breve o trânsito terrestre, e que o embuste e a mentira seguiriam no Seu encalço após a morte, foi peremptório, advertindo os amigos sobre a possibilidade do surgimento de falsos profetas, qual ainda ocorre nos dias atuais...
Como distingui-los? Quais os sinais de identificação que poderiam representar a sua autenticidade? E, de imediato, a imagem da árvore foi tomada como significativa e definidora da legitimidade de cada ser, irretorquível pelo seu conteúdo específico, graças ao qual, a árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má.
E óbvio que somente através dos atos, que revelam os valores morais de cada criatura, se pode avaliar se a mensagem de que alguém se faz portador é verdadeira.
Ninguém há que, dominado pela sombra, possa desvelar significados profundos, somente encontrados naquele que esteja identificado com a Fonte do Bem.
Mediante a conduta, portanto, os interesses e conveniências, se pode aquilatar sobre as qualidades morais do ser humano, porquanto são-lhe o documento digno de fé.
A ausência da sombra sempre favorece a presença do conhecimento e do discernimento, da ação oposta ao egoísmo, produzindo harmonia interna e não ambição, não competitividade vulgar e destruidora.
Autêntico em si mesmo, reflete o Psiquismo Superior da Vida e arrebanha outras criaturas, conduzindo-as na direção da plenitude, que já antegoza.
Adindo esclarecimentos à lição neotestamentária, posteriormente o Apóstolo S. João, na sua 1° Epístola, cap. IV, v.1, informou com sabedoria repassada de ternura:
- Meus bem-amados, não creiais em qualquer Espírito; experimentai se os Espíritos são de Deus, porquanto muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.
Justo confessar que, já no seu tempo, surgiram os impostores, desejando orientar as massas e auferir recursos para a sua sombra, responsável pelos transtornos que causavam.
Reconhecidos pelo caráter doentio, assim mesmo prosseguiam enganando outros semelhantes, que se compraziam nos jogos da mentira e da disputa irresponsável, pelos prazeres do ego alucinado.
A imagem da árvore é novamente trazida para avaliação, respondendo sabiamente a respeito da qualidade de que se revestem as interferências espirituais, as profecias que se referem à vida transcendental.
Nesse texto de alta magnitude, a Psicologia Profunda cede lugar à análise da Psicologia Transpessoal, porque mais compatível com a mensagem, que haure na Psicologia Espírita a explicação clara e significativa, interpretando o fenômeno, na área da mediunidade, que serve de instrumento para a pesquisa sobre a sobrevivência do ser à morte física assim como a sua anterioridade ao berço, e, no intervalo entre uma e outra existência, a comunicação real.
Esse capítulo profundo da Psicologia Transpessoal ilumina-se com a constatação de que a faculdade que permite o intercâmbio entre os dois planos vibratórios - o terrestre e o espiritual - é da alma, que o corpo reveste de células para permitir a sua ocorrência. É semelhante à inteligência que, de origem extrafísica, no soma encontra os neurônios e outras moléculas especiais para a sua exteriorização.
Entre os hebreus, o profetismo era relevante para caracterizar os enviados de Deus aos homens e às mulheres. No entanto, não estava adstrito o seu significado exclusivamente à produção de feitos excepcionais ou sobre-humanos.
Jesus, o Homem, podia movimentar as energias e comandá-las, direcionando-as conforme a Sua vontade.
Dialogava com os Espíritos enfermos que a morte não libertara dos conflitos que os afligiram, nem das paixões asselvajadas, conseguindo atendê-los e auxiliá-los nas aflições em que se debatiam.
Adentrando-se psiquicamente no futuro, descerrou então parte da cortina que o velava, entreteceu considerações incomuns sobre o Seu ministério, morte e ressurreição, apresentando no futuro as consequências da insânia e da soberba humana, conforme o Seu sermão profético, que se tem cumprido desde o momento da destruição do Templo de Jerusalém, que fora previsto, até à Diáspora, e dali aos acontecimentos históricos, que se hão apresentado na sucessão dos séculos.
A mediunidade, portanto, é de essência espiritual, exteriorizando-se sob a interferência e direcionamento dos Espíritos que, de acordo com a sua procedência, semeiam sombras e aturdimentos, enfermidades e desaires ou luz mirífica de esclarecimento, de caridade, de amor.
A Psicologia Profunda reconhece-Lhe o poder, em face da Sua integração na Consciência Cósmica, na qual adquiria sabedoria e
renovava as energias em intercâmbio transcendente, inabitual para os seres humanos.
A sombra coletiva, no entanto, prossegue inquietando, e os indivíduos, açodados pelo ego não superado, esperam o Messias que os liberte dos vícios e da indolência sem o auto esforço, que lhes conceda felicidade sem a ocorrência de vexames, sem lutas, esquecendo-se que, mesmo que tal absurdo se fizesse normal, não poderia impedir-lhes a ocorrência da morte física, o enfrentamento com a autoconsciência e com a Realidade.
Para atendê-los, no turbilhão das aventuras do cotidiano, surgem e são celebrizados homens e mulheres prodigiosos, que se afirmam profetas e Cristos, capazes de solucionar os problemas gerais, menos os próprios, nos quais estorcegam em desespero insano.
A árvore, representando a anima da mediunidade, oferece o fruto, seu animus, em perfeita identidade. Uma e outro definem pela produção a qualidade que os constitui.
O profeta e as suas revelações, o animus e a anima da imagem elucidadora, compõem a unidade que, pela qualidade demonstrará se a sua é uma origem saudável, verdadeira ou enfermiça da sombra mentirosa e petulante.
Jesus assimilou as ideologias vigentes naqueles dias, mas não se deteve nelas, pelo contrário, ergueu-lhes o véu que as deixava sob trevas, referindo-se à necessidade da conquista desse sentido paranormal, que se encontra inato nos seres humanos, a fim de que possam superar os limites em que se debatem, ampliando-lhes as percepções psíquicas, morais e emocionais.
O ser real, à luz da Psicologia Espírita, é eterno, experienciando inumeráveis renascimentos físicos e evoluindo no rumo da Grande Luz, que o impregnará com a claridade da paz.
Por essa razão, a árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má, prosseguindo como lição psicológica de seleção de valores humanos, auxiliando a que sejam identificados e reconhecidos os verdadeiros profetas – os médiuns das verdades espirituais - e que, através dos seus atos sem sombra, mereçam respeito e consideração ou simplesmente compaixão e socorro.

(Do livro "O Evangelho à Luz da Psicologia Profunda", Joanna de Angelis, psicografia de Divaldo P. Franco, FEB)



quinta-feira, 25 de junho de 2015

FUNDAMENTOS DO ESPIRITISMO




PERGUNTA – Se a Ciência, a Filosofia e o Evangelho são os fundamentos da Doutrina Espírita, como interpreta-los em sua justa significação?

RESPOSTA – Em Espiritismo, a Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina.
Com a primeira, há movimento de opiniões, com a segunda, temos a variedade dos pontos de vista na matéria interpretativas e, com o terceiro, encontramos a renovação da alma para a Eternidade.
A primeira modifica-se, dia a dia.
A segunda evolui e transforma o seu quadro de conceituação da vida.
O terceiro, porém, é imperecível roteiro de elevação.
A Ciência e a Filosofia são meios, o Evangelho é o fim.

No esforço científico e na perquirição filosófica, o homem pode gastar indefinido tempo à procura das causas profundas do destino e do ser.
No Evangelho, porém, o coração e o cérebro despertam para o caminho da própria sublimação. Dentro dele, não há lugar para ilações provisórias. Resplandece a luz em todos os seus ângulos divinos, compelindo a criatura a humanizar-se, a angelizar-se e a santificar-se para a união com o Pai Supremo.


Em síntese concentrada, reconhecemos que, se a Ciência e a Filosofia são fundamentos indiscutíveis de nossa Doutrina Consoladora, em torno delas, o espírito costuma vaguear longos séculos, ao redor de concepções puramente humanas, enquanto que, no Evangelho, encontra nossa alma a companhia do Amigo Celestial, com quem é possível alcançar o monte da iluminação para a Vida Infinita, sem escalas através das estações de prova desnecessária, com ruinosa perda de tempo e de energia na Obra do Senhor.

(Emmanuel, do livro "Doutrina e Aplicação", psicografia de Chico Xavier, FEB)

terça-feira, 9 de junho de 2015

O DISPENSADOR DE BENÇÃOS



Do ponto de vista sociológico, tratava-se de um grupelho. Aparelhados e inexperientes, a sua importância advinha da presença de Jesus, que os conduzia com sabedoria, esclarecendo-os quanto aos negócios da Boa Nova. Eles próprios não se davam conta da grandeza do compromisso a que se haviam vinculado. Nem mesmo haviam proposto interrogações. Deixaram-se arrastar pelo magnetismo do Nazareno que os fascinava, e seguiram-no, sem consciência da revolução que se estava delineando e na qual teriam papel relevante. Quase todos os eram de procedência humilde, alguns mesmo analfabetos, conhecedores dos textos sagrados mediante a tradição verbal, ignorando as interpretações teológicas ou o significado místico dos seus conteúdos. Acreditavam em Deus por atavismo, sem profundamento de informações, reverenciando-o conforme os hábitos simples que adotaram e mantinham. Jesus era um desafio constante, que lhes ultrapassava a capacidade de entendimento. O seu porte físico e a Sua estatura moral não podiam ser mensurados e sem mais reflexões, isso lhes bastava para amá-lo, segui-lo e confiar nEle. Muitos dos seus discursos lhes escapavam à compreensão; não obstante, quando a massa se diluía, o Mestre ministrava-lhes particulares observações e esclarecimento próprios. Nunca poderiam imaginar que seus nomes e sacrifícios ficariam imortais nas páginas da História e nos sentimentos humanos, eles que a nada ou quase nada ambicionavam, além do entendimento das suas e das necessidades familiares mais imediatas. As revoluções, porém, não são constituídas por personagens importantes, de destaque no mundo, famosas no conceito social. Tornaram-se conhecidas depois do holocausto, da expansão ideológica, de haverem extrapolado a própria dimensão. Os mártires da Doutrina, que os seguiram, eram também gente humilde, sedentas de paz e esfaimadas de amor, que se nutriam do pábulo divino da esperança em um mundo melhor, rico em fraternidade e perdão. Jesus fizera-se como um deles, a fim de melhor os conduzir, utilizando-se da sua linguagem e diminuindo as suas aflições. Embora os Seus fossem motivos mais importantes e quase inalcançáveis para eles, simplificou-os e conseguiu sensibilizá-los de tal forma, que se deixaram de pertencer para imolarem-se mais tarde pelo ideal. Essa extraordinária saga, a da construção do reino de Deus no mundo dos homens, é a mais notável conquista do espírito inteligente em nome da solidariedade e do humanismo. Pode-se imaginar, embora a grande distância no tempo e a diferença de circunstâncias, o que eram aquelas gentes modestas e afligidas pelas asperezas existenciais. Os seus objetivos muito imediatos, resumiam-se nos labores do cotidiano, na resignação a que eram submetidas pelas imposições sociais arbitrárias, na conquista do pão, da roupagem e da pequena propriedade em que residiam, sem mais amplas aspirações...
As doenças eram-lhes cruéis sicários, ao lado da pobreza, do desprestígio, das lutas entre si... Jesus apareceu-lhes e abre-lhes um elenco de novas possibilidades, oferecendo-lhes recursos incomuns, oportunidades antes jamais imaginadas e causa uma rápida mudança de conduta. Os interesses servis se avolumam e as paixões se engalfinham em disputas constantes, de modo a beneficiarem-se da Sua presença, a merecerem as Suas concessões...

A mensagem dele, de renovação e de libertação interior, passava quase desapercebida, por cuja razão estavam sempre avolumando o número de párias morais e desajustados sociais, para que pudessem ser atendidos. Assim, a Sua fama se espalhou por toda a região de Cafarnaum, na Galiléia. As pessoas famosas perdem o direito à privacidade, ao repouso, a si mesmas. Os seus atos são vigiados e os seus pensamentos perscrutados. Devem ser originais e representativas das ambições dos seus aficionados. Não lhes são facultadas horas de paz, nem desfrutam as oportunidades de seres normais. Com Jesus assim acontecia, logo a multidão infeliz, aquela assinalada pelas dores excruciantes, se adensava, aguardando milagres. A palavra milagre significava-lhes o impossível, como até hoje e isso atraia a curiosidade. Negavam-se a acreditar no Seu poder de alterar a estrutura de muitas ocorrências, por conhecê-las integralmente. Desse modo, quando Ele chegou a Cafarnaum, após haver discursado na sinagoga, os amigos pediram-lhe que atendesse à sogra de Pedro que ardia em febre. Magnânimo e superior às questiúnculas da saúde física, compreendia, no entanto, o que a mesma lhe significava, Ele cuidava da saúde real, aquela que responde pela externa, mas as pessoas se preocupavam de maneira equívoca. Assim, desejando fazer-se respeitado, Ele inclinou-se sobre ela, ordenou à febre e essa deixou-a. Erguendo-se, imediatamente começou a servi-los. Ao pôr do Sol, todos quantos tinham doentes, com diversas enfermidades, levaram-lhos, e Ele, impondo as mãos a cada um deles curava-os. Também de muitos saíam Espíritos, que gritavam e diziam: Tu és o Filho de Deus! Mas Ele repreendia-os e não os deixava falar, porque sabiam que Ele era o Messias, e a hora da revelação ainda não chegara. Cada questão em seu momento próprio, e era necessário preparar o campo, fertilizá-lo, a fim de que as sementes de luz pudessem germinar e o Novo Dia se instalasse nos corações. Terminada a tarefa junto dos aflitos pelos próprios erros, aos amarrados a tresvarios obsessivos por consciência culpada, aos desesperados por haverem perdido a direção de sim mesmos, o Mestre retirou-se, para sintonizar com Deus, a Inexaurível Fonte de Vida. Procurando insistentemente pelas sucessivas ondas de necessitados que chegavam, intérminas, Ele explicou: - Tenho também que anunciar a Boa Nova do reino de Deus às outras cidades, pois para que isso fui enviado. ... E saiu a pregar nos campos, nas aldeias, nas sinagogas, nas praças, nas praias, em toda a parte onde se fizesse necessário. A primavera espiritual que Ele iniciava jamais se transformaria em outono de desesperança ou de inverno de sofrimento insuportável, porque Ele permanecia para sempre como o incomparável dispensador de bênçãos, renovando as paisagens do mundo moral da criatura humana de todos os tempos futuros.

(Do livro "Até o Fim dos Tempos", Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo P. Franco, LEAL)

sábado, 6 de junho de 2015

A MORTE ESPIRITUAL



A questão da morte espiritual é um dos novos  princípios que assinalam os progressos da ciência espírita. A maneira por que foi apresentada em certa teoria pessoal determinou, no primeiro momento, a sua rejeição, porque parecia implicar o aniquilamento, em dado tempo, do eu individual e assimilar as transformações da alma às da matéria, cujos elementos se desagregam para formar novos corpos. Os seres ditosos e aperfeiçoados seriam, na realidade, novos seres, o que é inadmissível. A eqüidade das penas e dos gozos futuros só se evidencia com a perpetuidade dos seres ascendendo a escala do progresso e depurando-se pelo trabalho e pelos esforços da vontade própria.
Tais as conseqüências que se podiam tirar, a priori, daquela teoria. Entretanto, devemos convir em que ela não foi apresentada com a empáfia de um orgulhoso que pretendesse impor o seu sistema. Disse modestamente o autor que apenas desejava lançar uma idéia no terreno da discussão, dado que dessa idéia poderia surgir uma verdade nova.
Ao parecer dos nossos eminentes guias espirituais, ele teria pecado menos quanto ao fundo, do que quanto à forma, que se prestou a uma falsa interpretação. Isso nos determina a estudar seriamente a questão. É o que tentaremos fazer, baseando-nos na observação dos fatos que ressaltam da situação do Espírito, em duas épocas, para ele, capitais: a da sua descida à vida corpórea e a do seu regresso à vida espiritual.
Por ocasião da morte corpórea, o Espírito entra em perturbação e perde a consciência de si mesmo, de sorte que jamais testemunha o último suspiro do seu corpo. Pouco a pouco a perturbação se dissipa e o Espírito se recobra, como um homem que desperta de profundo sono. Sua primeira sensação é a de estar livre do fardo carnal; segue-se o espanto, ao reparar no novo meio em que se encontra. Acha-se na situação de um a quem se cloroformiza para uma amputação e que, ainda adormecido, é levado para outro lugar. Ao acordar, ele se sente livre do membro que o fazia sofrer; muitas vezes, procura-o, surpreendido de não mais o possuir. Do mesmo modo, o Espírito, no primeiro momento, procura o corpo que tinha; descobre-o a seu lado; reconhece que é o seu e espanta-se de estar dele separado e só gradativamente se apercebe da sua nova situação.
Nesse fenômeno, apenas se operou uma mudança de situação material. Quanto ao moral, o Espírito é exatamente o que era algumas horas antes; por nenhuma modificação sensível passou; suas faculdades, suas idéias, seus gostos, seus pendores, seu caráter são os mesmos e as transformações que possa experimentar só gradativamente se operarão, pela influência do que o cerca. Em resumo, unicamente para o corpo houve morte; para o Espírito, apenas sono houve.
Na reencarnação, as coisas se passam de outra maneira.
No momento da concepção do corpo que se lhe destina, o Espírito é apanhado por uma corrente fluídica que, semelhante a uma rede, o toma e aproxima da sua nova morada. Desde então, ele pertence ao corpo, como este lhe pertencerá até que morra. Todavia, a união completa, o apossamento real somente se verifica por ocasião do nascimento.
Desde o instante da concepção, a perturbação ganha o Espírito; suas idéias se tornam confusas; suas faculdades se somem; a perturbação cresce à medida que os liames se apertam; torna-se completo nas últimas fases da gestação, de sorte que o Espírito não aprecia o ato de nascimento do seu corpo, como não aprecia o da morte deste; nenhuma consciência tem, nem de um, nem de outro.
Desde que a criança respira, a perturbação começa a dissipar-se, as idéias voltam pouco a pouco, mas em condições diversas das verificadas quando da morte do corpo.
No ato da reencarnação, as faculdades do Espírito não ficam apenas entorpecidas por uma espécie de sono momentâneo, conforme se dá quando do regresso à vida espiritual; todas, sem exceção, passam ao estado de latência. A vida corpórea tem por fim desenvolvê-las mediante o exercício, mas nem todas se podem desenvolver simultaneamente, porque o exercício de uma poderia prejudicar o de outra, ao passo que, por meio do desenvolvimento sucessivo, umas se firmam nas outras. Convém, pois, que algumas fiquem em repouso, enquanto outras aumentam. Esta a razão por que, na sua nova existência, pode o Espírito apresentar-se sob aspecto muito diferente, sobretudo se pouco adiantado for, do que tinha na existência precedente.
Num, a faculdade musical, por exemplo, será mais ativa; ele conceberá, perceberá e, portanto, fará tudo o que for necessário ao desenvolvimento dessa faculdade; noutra existência, tocará a vez à pintura, às ciências exatas, à poesia, etc. Enquanto estas novas faculdades se exercitarem, a da música estará latente, mas conservando o progresso que realizou. Resulta daí que quem foi artista numa existência, poderá ser um sábio, um homem de estado, ou um estrategista noutra, sendo nulo do ponto de vista artístico e reciprocamente.
O estado latente das faculdades na reencarnação explica o esquecimento das existências precedentes, enquanto que, por ocasião da morte, achando-se as faculdades em estado de sono pouco durável, a lembrança da vida que acaba de transcorrer é completa, ao despertar o Espírito na vida espiritual.
As faculdades que se manifestam estão naturalmente em relação com a posição que o Espírito tem de ocupar no mundo e com as provas que haja escolhido. Entretanto, acontece muitas vezes que os preconceitos sociais o desloquem, o que faz que certas pessoas estejam intelectual e moralmente acima ou abaixo da posição que ocupam. Esse deslocamento, pelos entraves que acarreta, faz parte das provas; cessará com o progresso. Numa ordem social avançada, tudo se regula de acordo com a lógica das leis naturais e aquele que apenas tiver aptidão para fabricar sapatos não será, por direito de nascimento, chamado a governar os povos.
Voltemos à criança. Até ao nascer, todas as faculdades se lhe encontram em estado latente, nenhuma consciência de si mesmo tem o Espírito. As que devam desenvolver-se não desabrocham de súbito no ato de nascer; o desenvolvimento delas acompanha o dos órgãos que terão de servir para as suas manifestações; por meio da atividade íntima em que se põem, elas impulsionam o desenvolvimento dos órgãos que lhes correspondem, do mesmo modo que o broto, ao nascer, força a casca da árvore. Daí resulta que, na primeira infância, o Espírito não goza em plenitude de nenhuma de suas faculdades, não só como encarnado, mas também como Espírito livre. Ele é verdadeiramente infantil, como o corpo a que se acha ligado, sem, contudo, estar neste comprimido penosamente. A não ser assim, Deus houvera feito da encarnação um suplício para todos os Espíritos, bons ou maus.
O mesmo, porém, não acontece com o idiota ou o cretino.Nestes, não se tendo os órgãos desenvolvido paralelamente às faculdades, o Espírito acaba por achar-se na posição de um homem preso por laços que lhe tiram a liberdade dos movimentos. Tal a razão por que se pode evocar o espírito de um idiota e obter respostas sensatas, ao passo que o de uma criança de muito pouca idade, ou que ainda não veio à luz, é incapaz de responder.
Todas as faculdades, todas as aptidões se encontram em gérmen no Espírito, desde a sua criação, mas em estado rudimentar, como todos os órgãos no primeiro filete do feto informe, como todas as partes da árvore na semente. O selvagem que mais tarde se tornará homem civilizado possui, pois, em si os germens que, um dia, farão dele um sábio, um grande artista, ou um grande filósofo.
À medida que esses germens chegam à maturidade, a Providência lhes dá, para a vida terrestre, um corpo apropriado às suas novas aptidões. É assim que o cérebro de um europeu é organizado de modo mais completo, provido de maior número de teclas, do que o do selvagem. Para a vida espiritual, dá-lhes um corpo fluídico, ou perispírito, mais sutil e impressionável por novas sensações. À proporção que o Espírito se engrandece, a natureza o provê dos instrumentos que lhe são necessários.
No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dispersão dos elementos, não há morte, senão para o invólucro material e o invólucro fluídico; mas, quanto à alma, ou Espírito, esse não pode morrer para progredir; de outro modo, ele perderia a sua individualidade, o que equivaleria ao nada. No sentido de transformação, regeneração, pode dizer-se que o Espírito morre a cada encarnação, para ressuscitar com atributos novos, sem deixar de ser o eu que era. Tal, por exemplo, um camponês que enriquece e se torna importante senhor. Trocou a choupana por um palácio, as roupas modestas por vestuários de brocado. Todos os seus hábitos mudaram, seus gostos, sua linguagem, até o seu caráter. Numa palavra, o camponês morreu, enterrou as vestes de grosseiro estofo, para renascer homem de sociedade, sendo sempre, no entanto, o mesmo indivíduo, porém transformado.
Cada existência corpórea é, pois, para o Espírito, um meio de progredir mais ou menos sensivelmente. De volta ao mundo dos Espíritos, leva para lá novas idéias; um horizonte moral mais dilatado; percepções mais agudas, mais delicadas. Vê e compreende o que antes não via, nem compreendia; sua visão que, a princípio, não ia além da última existência que tivera, passa a abranger sucessivamente as suas existências pretéritas, como o homem que sobe uma montanha e para quem o nevoeiro se vai dissipando, abrange com o olhar um horizonte cada vez mais vasto.
A cada novo estágio na erraticidade, novas maravilhas do mundo invisível se desdobram diante do seu olhar, porque, em cada um desses estágios, um véu se rasga. Ao mesmo tempo, seu envoltório fluídico se depura; torna-se mais leve, mais brilhante e mais tarde resplandecerá. É quase um novo Espírito; é o camponês desbastado e transformado. Morreu o Espírito velho, mas o eu é sempre o mesmo.

É assim, cremos, que convém se entenda a morte espiritual.

(Do livro "Obras Póstumas", Allan Kardec, FEB)